Urupês

Reinfecção por COVID é possível, mas investigação é deficitária

autor: Joseane Teixeira

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Quando o assunto é a possibilidade de reinfecção pelo novo coronavírus, não é difícil encontrar pessoas que afirmam terem se infectado duas vezes (ou mais) pela doença.

Apuração realizada pela Gazeta do Interior aponta que foram registrados, pelo menos, 31 possíveis casos de reinfecção nas 12 cidades de cobertura do jornal. A campeã é Nova Aliança, com 9 relatos, seguida de Urupês (7), Cedral (5), Potirendaba (4), Catiguá (4), Tabapuã (1) e Uchôa (1).

A telefonista Roseli de Souza, de 49 anos, integra esse grupo. Moradora do município de Bady Bassitt, ela conta que em julho do ano passado testou positivo para a Covid-19.

“Tive febre, dor de cabeça e me senti um pouco ofegante. Fiz o exame de PCR, que confirmou a suspeita de coronavírus”, contou.

Roseli se recuperou da doença e acreditava estar imune quando, em março deste ano, passou a sentir outros sintomas característicos.

“A garganta começou a raspar, tive dor no corpo, mas achei que era uma gripe. Até porque estava frio e eu tinha mexido com água. Aí veio a perda do paladar e a fraqueza”, lembra.

A mulher fez o segundo exame PCR, cujo resultado também aferiu positivo para o coronavírus. Só que desta vez o quadro foi mais severo e ela precisou ser internada no posto de saúde da cidade, onde permaneceu 10 dias recebendo oxigênio.

“Queriam me transferir para um hospital e me intubar. Tive medo de morrer”, confessa.

Nas duas ocasiões em que ficou doente, Roseli ainda não tinha recebido a vacina imunizante. Nesta semana, comemorou a segunda aplicação da fabricante AstraZeneca.

Apesar dos dois diagnósticos positivos em um intervalo de 8 meses, a prefeitura de Bady Bassitt afirma que a cidade não registra nenhum caso de reinfecção. Assim como Catiguá, Elisiário e Guapiaçu.

Isso porque o Ministério da Saúde estabelece critérios bastante rígidos para comprovar que um paciente se contaminou pela segunda vez com o Sars-CoV-2, causador da Covid-19. Prova disso é que a Secretaria de Vigilância em Saúde do Governo Federal confirma oficialmente apenas 38 casos de reinfecção no Brasil, sendo três no estado de São Paulo.

O caso mais próximo da região foi registrado em dezembro do ano passado, na cidade de Fernandópolis, em uma auxiliar de enfermagem de 41 anos.
Por isso, para esclarecer as principais dúvidas dos leitores sobre a possibilidade de reinfecção, a reportagem entrevistou a doutora em virologia Nathália Zini. Acompanhe a entrevista:

O que é preciso para confirmar um caso de reinfecção pela Covid-19?
Exige-se do paciente dois resultados positivos de RT-PCR (exame do cotonete), com intervalo igual ou superior a 90 dias entre os dois episódios de infecção respiratória. Entre um teste e outro, é necessário a comprovação de que o paciente “negativou”, ou seja, o vírus não é mais detectado no organismo. Caso não haja a disponibilidade das duas amostras biológicas, com a conservação adequada, a investigação laboratorial fica prejudicada. Tendo ela, é realizado um estudo de sequenciamento genético para ver se o vírus é o mesmo. Se for, é reinfecção. Se é diferente, são duas infecções distintas.

Nesse sentido, é seguro afirmar que há mais casos de reinfecção do que os confirmados oficialmente?
Sim. Embora a incidência de reinfecção seja irrelevante comparado ao total de casos (estima-se que 7 a cada 100 mil pessoas), alguns países registraram mais casos que o Brasil porque dispunham de uma quantidade muito boa de testes. No começo da pandemia, o país demorou em adquirir materiais para exame e ocorreram as subnotificações, quando o paciente tem sintomas da Covid-19, mas não foi testado.

A maioria dos casos de reinfecção foi registrada antes da aplicação do plano nacional de imunização. É possível que esse número caia ainda mais com a vacinação da população?
Observando outros países que foram mais rápidos e eficientes em imunizar a população, nota-se a queda no número de casos e, consequentemente, de reinfectados. Grande parte desse sucesso deve-se à vacinação, somada, claro, à continuidade dos cuidados de prevenção, como o uso da máscara e o distanciamento social.

Por falar em vacinação, porque muitas pessoas relatam reação após a aplicação da AstraZeneca e praticamente nenhuma com a Coronavac?
Porque a AstraZeneca foi desenvolvida com um adenovírus, modificado geneticamente. Isso condiciona o paciente a ter um estímulo maior do sistema imunológico do que aquele que foi vacinado com a Coronavac, que usa a tecnologia de vírus inativado (morto). Ambas apresentaram comprovação científica de eficácia.
Muito se fala em sommelier de vacina, aquele paciente que quer escolher o imunizante a ser aplicado. O próprio site do Butantan informa a porcentagem de eficácia das 4 vacinas disponíveis no Brasil, sendo 95% Pfizer, 81% AstraZeneca, 67% Janssen e 62% Coronavac.

Como convencer o brasileiro a não escolher a vacina?
Essa discussão é própria deste momento. Desde crianças nós cumprimos o calendário nacional de vacinação e nunca questionamos a fabricante que está sendo aplicada no nosso corpo. Em um contexto de pandemia, onde milhões de pessoas estão morrendo no mundo, a prioridade é vacinar o maior número de pessoas no menor intervalo de tempo. Com a vacina que tiver disponível. Todas que estão no mercado foram testadas e tiveram a eficácia comprovada. Enquanto as pessoas escolhem a vacina, o coronavírus escolhe as pessoas.

Muitas pessoas estão realizando teste de anticorpos pós-vacinação para saberem se estão protegidas. Esse teste traz resultados seguros?
Nem sempre. Quando eu sou exposta, ou seja, fiquei doente ou tomei a vacina, meu corpo vai gerar uma resposta imunológica. Ela pode ser celular ou produzir anticorpos. Uma vez gerado os anticorpos, pra sempre eu vou ter esse sistema de defesa. Pode diminuir a quantidade com o tempo, mas eles se qualificam. Porém, algumas pessoas não produzem esse tipo de resposta, mas sim a imunidade celular. Esta, somente detectada em exames específicos, realizados em laboratórios modernos. Não é um exame popular.
Então não é porque o teste apresentou baixa quantidade de anticorpos que o paciente está desprotegido.

As prefeituras de Ibirá e Novais não responderam as solicitações da reportagem.