Um mês depois da tragédia com trem que matou oito nada mudou e risco continua

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Um mês depois da tragédia com um trem que matou oito pessoas, em São José do Rio Preto, nada mudou e a vida de todas as famílias que continuam morando ali está em risco. Nos municípios de circulação da Gazeta, Cedral e Catiguá, as composições que vem de vários estados, cruzam com a população em passagens em nível, além de passar do lado de residências. Um problema antigo e aparenta que nunca vai ter um fim.

No dia 24 de novembro, o País parou para assistir o que foi considerada a maior tragédia com trens na região noroeste do estado de São Paulo. A composição era formada por 78 vagões, pesava 8.451 mil toneladas e tinha saído de Rio Preto com destino a cidade de Rio Claro (SP).

Naquela tarde, metade da composição saiu dos trilhos e alguns vagões atingiram, em cheio, duas casas do bairro Jardim Conceição. Cinco pessoas de uma residência e três de outra morreram na hora. Seis vítimas chegaram a ser socorridas, foram medicadas e apenas duas permanecem internadas. Uma delas com fratura exposta na perna e na mão.

Dentre todo esse tempo, muito se falou e pouco se fez. Ministério Público, Denit, ANTT, Polícia Civil, vereadores, prefeito e deputados estão cuidando do caso, mas polêmica da retirada da velha estrada de ferro, ou a estrada de ferro velho, do meio da cidade, parece que adormeceu junto àqueles que se foram na tragédia.

Na mesma semana da tragédia, moradores e manifestantes bloquearam a linha férrea e impediram que a concessionária que administra o trecho, América Latina Logística (ALL), fizesse a recuperação dos trilhos. Um acordo entre a empresa e o grupo de pessoas autorizou que a reconstrução fosse feita.

No começo desse mês a Polícia Civil começou a ouvir as testemunhas e vítimas da tragédia. O motorista foi ouvido no dia e liberado. Ele contou à polícia que estava a 44 km/h, dentro do limite permitido no trecho que, segundo a ALL, é de 50 km/h.

Um dia depois a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), divulgou uma nota afirmando que a velocidade permitida no perímetro urbano, onde há passagens em nível, é de apenas 25 km/h e não 50, conforme tinha falado a ALL. A empresa então disse que reveria internamente a falha de interpretação junto à exigência da ANTT.

Durante todo o tempo, a empresa responsável pelo acidente, ALL, informava a imprensa que os moradores estavam sendo assistidos de acordo com a necessidade de cada um. Todos os desabrigados receberam roupas, móveis, brinquedos para as crianças, alimentação e moradia. Agora um acordo entre Defensoria Pública e familiares das vítimas está sendo feito.

Vítimas do trem da morte

Rafaela dos Santos Barcelos, 2 anos

Kauã dos Santos Almeida, 6 anos

Amanda Cardoso da Silva, 16 anos

Graziela Joaquim dos Santos, 27 anos

Francisco Félix Emiliano, 30 anos

Denize da Cruz Flora, 33 anos

Paula Ramos Cardoso da Silva, 36 anos

Waldemar Dias da Silva Filho, 41 anos

“O trem que traz progresso é o que mata ou o trem que mata é o que traz progresso?”

No dia 13 de novembro do ano passado, um acidente com um trem de transporte de combustíveis e um bitrem assustou os moradores de Cedral. O caminhão de cana foi atingido enquanto cruzava a linha férrea.

Na época, o motorista do caminhão, José Luiz da Silva, 42 anos, disse que foi o primeiro acidente que se envolveu em 23 anos de profissão. Ele contou que além das árvores no local atrapalharem sua visão no momento do acidente, o trem vinha em alta velocidade e fez o sinal sonoro muito próximo do cruzamento.

“O trem estava muito rápido e eu só ouvi a buzina quando eu já estava passando a linha, tanto que ele só foi parar a uns 500 metros para frente e jogou o meu caminhão há uns 100 metros”, conta.

De acordo com a Polícia Militar, o cruzamento é perigoso e acidentes no trecho são comuns. Por sorte, o motorista teve apenas leves arranhões no braço e foi liberado ainda no local. Pelo fato da composição estar vazia, o risco de explosões era ainda maior, pois o ar que fica dentro dos vagões junto aos restos de combustíveis, pode provocar atritos e causar grandes incêndios.

Uma das vereadoras da cidade fez um abaixo assinado e luta há oito anos para colocar uma cancela no local, só que até agora nenhuma providência foi tomada nem pelo poder executivo e muito menos pela ALL.

A assessoria de imprensa da Prefeitura de Cedral informou que o executivo já fez uma solicitação para a instalação de uma cancela ou um cruzamento em desnível, só que devido à burocracia do governo estadual e federal, ainda não foi possível executar a obra.

A América Latina Logística informou que o acidente aconteceu após o veículo invadir a linha férrea no momento do cruzamento do trem, lamenta o ocorrido e esclarece que, de acordo com previsão do Regulamento dos Transportes Ferroviários, a manutenção e sinalização das passagens de nível implantadas nos cruzamentos da via férrea são de responsabilidade do executor da via mais recente, ou seja, do município de Cedral.

Em Catiguá o problema é o mesmo. O cruzamento em nível preocupa motoristas e tira o sono dos moradores. Próximo à linha férrea também existem casas e famílias que ali moram e que correm risco de morte dia e noite.

Moradores afirmam que várias vezes no ano carros são arrastados por trens por conta de o cruzamento ser em nível.

Em Uchôa a situação é bastante diferente. Uma passarela e uma passagem em desnível para dividir os bairros São Miguel e Centro, foi construída logo na formação da cidade. Fator esse que faz com que os uchoenses durmam aliviados e as casas ficam bem distantes dos trilhos.

Os carros passam por baixo da linha férrea e os pedestres por cima. Mesmo com a passarela, alguns moradores se arriscam atravessando a linha para cruzar os bairros. Na história da cidade, nenhum acidente com trem foi registrado até hoje.

A Gazeta entrou em contato com a assessoria de imprensa do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o Denit, durante uma semana, mas ninguém retornou as ligações ou respondeu os e-mails. O departamento é quem é responsável pela retirada dos trilhos nos trechos urbanos das cidades.

(Foto: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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