Sucessão de erros de administradores afunda Clube Icaraí de Potirendaba ; espaço está falido e enterrado em dívidas

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“A era Poli”

Um dos mais tradicionais e famosos clubes da região que antes recebia milhares de pessoas por mês, hoje está falido, caindo aos pedaços e correndo risco de ser vendido. O sucesso do Clube Icaraí de Potirendaba, prestes a completar 53 anos de fundação no dia 25 de janeiro do ano que vem, se transformou em uma coleção de ações trabalhistas movidas por funcionários, além de dívidas astronômicas.

Um dos maiores e mais importantes patrimônios da população da cidade que viveu momentos de auge, gerando renda para comerciantes locais, movimentando a cidade, hoje está fechado, abandonado e sendo destruído pelo tempo.

Nossa reportagem foi tentar buscar quem seria os responsáveis pelo fracasso e as verdadeiras causas das brigas políticas administrativas que envolvem o Clube Icaraí até hoje. Fomos em busca do mais recente presidente da Sociedade Recreativa, Cultural e Esportiva, Pedro Gomes de Carvalho, conhecido na cidade como Poli é funcionário público aposentado e governou o local por quase duas décadas ininterruptamente.

Poli conta que assumiu como presidente pela primeira vez em 1994, onde a instituição possuía 1116 sócios. Quando deixou a presidência, em 2010, havia 1926 pessoas que pagavam uma mensalidade no valor de R$ 25.

Desse total, a arrecadação somente com mensalidades dava uma média de R$ 48 mil. Além das mensalidades, Poli diz que o clube sobrevivia com a entrada de visitantes e com o bar, já que os bailes não se pagavam. “Era muito caro o valor das bandas. Sem contar funcionários que tínhamos que contratar e os impostos que tínhamos que pagar”, fala.

Durante vários anos, o Icaraí ficou no topo da lista de programação de baladas das pessoas de Potirendaba e também de várias cidades da região. Poli lembra que as bandas Jair Supercap Show e Capitão Mamão atraiam milhares de pessoas nas noites de sábados e feriados. “A moçada adorava. Era um ponto de encontro dos jovens. As pessoas compravam roupas, movimentavam o comércio local, se preparavam para ir”, conta.

Para manter o clube funcionando tinham sete funcionários fixos. Em dias de baile, era preciso uma média de dez seguranças, três pessoas no caixa, quatro no bar, quatro no bar de doses, duas nos banheiros e duas na portaria.

O que começou a afundar o Clube foi o fato de nenhum funcionário ser registrado na época de Poli. Além disso, ele nunca registrou ata em cartório, além de o estatuto estar irregular, o que de acordo com o Código Civil, significa que os quase 20 anos de mandato de Poli nunca existiram.

“A era Mayk”

A mesmice da qualidade dos eventos foi despertando na população revolta e ao mesmo tempo indignação com falta de investimento nos eventos e na estrutura do local. Mayk Palharini um empresário intrigado e incomodado com o conformismo, iniciou por conta um processo de investigação da administração de Poli.

Adquiriu um título de sócio proprietário para poder ter o direito em participar do conselho e das decisões da instituição. Foi aí então que Palharini assumiu o cargo como presidente do Conselho.

Por vários meses, Mayk conta que pegava no mural de balancetes do clube, valores pagos às bandas contratadas, ligava para elas, cotava o mesmo show e via que os valores não batiam. Além disso, ficava sentado na frente do local para contar número de pagantes no dia do evento.

“Eu fiz isso várias vezes. Eu ligava para uma determinada banda e eles me falavam que o show deles em Potirendaba era R$ 8 mil. No balancete do clube, o mesmo show aparecia pelo valor de R$ 16 mil. Eu ficava sentado por horas contando quantas pessoas tinham entrado no baile para ver se batia com o número apresentado por ele no balancete. Isso foi me causando revolta e meu objetivo era tirar ele (Poli) da presidência”, diz Mayk.

Seis meses após Poli assumir o seu último mandato em 2010, Mayk ingressou na justiça com pedido de intervenção com o objetivo em realização de auditoria interna nas contas do Clube. O relatório apontou algumas irregularidades como um acordo que Poli havia firmada em pagar R$ 300 mensais para um funcionário, a contratação de uma advogada pelo valor de R$ 20 mil para defender ele do processo de afastamento da presidência, além da acusação de pagar propina para diretores da instituição.

Por essas e outras irregularidades, Poli foi afastado e então a justiça determinou um administrador provisório por quatro meses, o comerciante Ubirajara Brasil da Silva. Ele também sócio proprietário, durante seu pouco tempo fez com que qualquer pessoa, sócio ou não sócio, podia ter acesso ao clube pagando apenas portaria.

Ubirajara pediu afastamento alegando problemas de saúde e então um novo presidente provisório foi nomeado onde ficou no comando por oito meses. Em 2011 finalmente as eleições foram marcadas e Mayk foi eleito.

Quando assumiu, ele conta que a presença de público já estava em decadência e então começou a investir em grandes eventos para atrair maior número de público. Show’s como Maykon e Renato pelo valor de R$ 35 mil, Cesar e Paulinho por R$ 45 mil, além de Jads e Jadson também por R$ 35 mil foram levantando aos poucos e atraindo milhares de pessoas novamente aos fins de semana.

Após o término do mandato em 21 de março de 2013, Mayk alega que deixou uma dívida de cerca de R$ 20 mil. Dívida esta que eram boletos sem pagar do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) e de uma distribuidora de bebidas de São José do Rio Preto.
“A dívida ficou porque o show do dia 21 de março, dia do aniversário da cidade, foi um fracasso. Não deu ninguém, não vendeu bebida e o prejuízo ficou, mas o que era algo simples de se resolver com outros eventos seguintes”, diz.

“A era Gilmar”

Naquele mesmo fim de semana uma nova eleição já estava marcada e então o empresário Gilmar Bento Teixeira foi eleito. Palharini afirmou que desistiu da presidência do clube por ser contra a reeleição. “Eu já estava sem tempo por conta de vários compromissos na empresa e sempre fui a favor de renovação seja em qualquer esfera administrativa pública”, fala Mayk.

Teixeira então quando assumiu, diz que pegou a presidência do Clube com uma dívida de cerca de R$ 60 mil entre férias de funcionários, bebidas e ECAD. Meses foram passando, dívidas acumulando e a solução encontrada foi fechar as portas.

Consequentemente sócios foram desistindo de pagar a mensalidade e a arrecadação foi à praticamente zero. Atualmente, segundo Gilmar, o Clube Icaraí possui 74 sócios proprietários e cerca de 20 sócios contribuintes que continuam pagando. Valor este que mesmo assim não é suficiente para cobrir nem as despesas básicas como água, luz e telefone.

Todos os funcionários foram demitidos e nove deles ingressaram com ação na justiça. Gilmar diz que o Icaraí hoje acumula uma dívida de R$ 198 mil entre as ações trabalhistas e o comércio local.

O fracasso:

A sucessão de falhas nas gestões foi acumulando problemas e dívidas. Dos nove funcionários que ingressaram com ação, seis deles já foram julgados e o que resulta um total a pagar de quase R$ 300 mil de ações trabalhistas.

Gilmar diz que desse total pelo menos R$ 132 mil já foram pagos. Como os honorários da advogada contratada por Poli não foram pagos, ela também entrou com ação e empenhorou móveis do clube como forma de pagamento. Ela levou 50 jogos de mesa, dez exaustores, oito freezers e um computador, segundo Gilmar.

Quatro anos após deixar a presidência, Poli hoje, com 69 anos, depressivo, fuma um cigarro atrás do outro, enquanto dedilha as cinzas no cinzeiro que fica no muro ao lado de sua cadeira de cordas na varanda dos fundos de sua casa. Diante das acusações de desvio de dinheiro feitas pela população, ele se defende dizendo sobre o patrimônio que tem hoje. “Tudo o que eu tenho é essa casa sem absolutamente nenhum luxo, meus dois carros velhos e nenhum outro imóvel”, diz.

Questionado se voltaria a assumir a frente do Icaraí ele é categórico. “De jeito nenhum. Tudo o que eu adquiri foi depressão, hoje tenho medo de aglomeração, não consigo mais sair de casa. Não tenho mais condições de voltar”, finaliza.

Para Poli, o principal motivo da decadência foi a autorização da entrada de não sócios que pagavam apenas no dia dos eventos para usufruir dos benefícios do local criada, segundo ele, por Ubirajara Brasil. Com isso, os sócios que pagavam mensalidade foram desistindo de pagar e automaticamente diminuindo a arrecadação.

Ubirajara explica que estava cumprindo as regras do estatuto e a determinação do juiz. “Os porteiros eram os mesmos e podem confirmar que eu nunca deixei isso acontecer. Eles barravam. No meu período eu não deixei entrar. O que acontece é que eu provei que o clube dava dinheiro. Deixei quase R$ 100 mil em caixa. Tentei regularizar, mas tive que deixar por problemas de saúde”, diz.

Para ele, o que levou o clube ao fracasso foi à migração de público para outras opções de lazer. “Na minha opinião pessoal o que levou a decadência foi a migração para outros eventos naturalmente. O clube deixou de ser a opção de lazer da população. Hoje as pessoas vão para ranchos, boates da região e lugares onde tem gente”, comenta.

Já para Mayk foi uma sucessão de acontecimentos. “Foram ações trabalhistas, o público que foi migrando para novas opções de lazer na cidade como boate, as dívidas que foram acumulando, além dos sócios deixarem de pagar”, conta.

Gilmar fala que a culpa é de todos. “Eu sempre gostei do clube e é a pior coisa do mundo ver ele nessa situação. Eu sou culpado por deixar o clube do jeito que está, mas ao mesmo tempo os antecessores não souberam aproveitar o que tinham na mão”, finaliza.

Solução:

No mês passado uma reunião com sócios proprietários foi marcada para decidir o rumo do clube. Uma das medidas encontradas seria vender o imóvel para pagar as dívidas, porém o valor estimado do prédio hoje é extremamente superior ao da dívida.

Segundo os próprios sócios o clube hoje ocupando quase seis lotes da área central da cidade, atrás da Igreja Matriz, valeria estimadamente R$ 3 milhões. Valor bem acima da dívida que não chega à R$ 200 mil.

Maércio Antônio Amato, um dos sócios e que faz parte do conselho administrativo, diz que não quer ver o Clube terminar dessa forma. Na reunião ele diz que medidas emergenciais como quermesses, eventos e promoções para sanar essa dívida foram sugeridas, mas que ainda nada ficou determinado.

“Pedimos para o Gilmar nos apresentar o relatório completo dessa dívida para juntos chegar a um acordo. Eu acho que o clube tem que sobreviver. Faz parte da nossa história. Nosso clube tem o nosso sangue. Pessoas doaram madeira de sítios para cobrir esse clube, doaram dinheiro. Isso não pode acabar”, diz Amato.

Até o fechamento desta edição na segunda semana de dezembro, ainda não haviam marcado uma nova reunião para definições de como ficará a situação do Clube Icaraí de Potirendaba. A Gazeta do Interior vai continuar acompanhando.

(Matéria publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de dezembro de 2014)
(Foto: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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