RAIO-X DA SAÚDE: Cedral recebe nota 3,7 da população em série de reportagens da Gazeta em atendimento SUS

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A série de reportagens Raio-x da Saúde visitou Cedral. O município com população de 8.165 mil habitantes, recebeu avaliação 3,78 dos usuários do Sistema Único de Saúde da cidade.

Há três edições que a Gazeta do Interior vem mostrando em reportagens detalhadas, como está o atendimento na saúde de cidades da região. Bady Bassitt e Potirendaba foram os dois municípios relatados até agora e que receberam notas 6 e 6,5, respectivamente. Em ambas, a principal queixa dos usuários é a dificuldade em conseguir consulta com médicos especialistas.

Em Cedral a situação é ainda pior. Não há nenhum médico especialista. O que causa surpresa é o número de prontuários médicos. São mais 16 mil fichas. A cidade que deveria ter o número de cadastros semelhante ao de habitantes, têm o dobro de pacientes e realiza uma média de 10 mil atendimentos por mês.

Mara Ghizellini Jacinto, coordenadora municipal de saúde, afirma que uma possível explicação para a ‘superpopulação’ seria a migração de pacientes de cidades vizinhas. “Eles (pacientes) conseguem um comprovante de residência de algum parente que tem o mesmo sobrenome e são atendidos normalmente. Infelizmente não temos como fazer nada, pois está na constituição que todos têm direito a atendimento na saúde pública”, diz.

Quanto à inexistência dos especialistas, Mara fala que o dever do município é realizar apenas a atenção básica. “Já tivemos médicos especialistas aqui, mas isso é competência do Estado. Se contratarmos esses médicos, estamos tirando das costas do governo uma responsabilidade que é dele”, afirma.

Sem atendimento com médicos especialistas, o município faz apenas serviço de urgência e emergência e sofre com a demora e repasse de verbas. Para realizar essas consultas, Cedral conta com uma unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), uma Unidade Básica de Saúde e uma Unidade de Estratégia de Saúde da Família. Para isso, recebe verba estimada em R$ 80 mil. Tudo do Governo Federal e recursos próprios.

Uma das poucas verbas que vem do Governo do Estado é para realizar a compra de insumos para diabéticos. A cidade tem 75 pacientes que tratam da doença e dão uma despesa mensal de mais de R$ 6 mil. O valor repassado pelo estado é de apenas R$ 0,50 por habitante por ano, o que dá pouco mais de R$ 4 mil. Valor este que não dá para cobrir as despesas nem de um mês de tratamento.

O município realiza atendimentos 24 horas com 10 médicos. A cidade conta ainda com quatro clínicos gerais, dois pediatras, dois ginecologistas e um especialista em raio-x, que recebem, em média, R$ 2,5 mil para trabalharem uma jornada de até oito horas por dia.

O prédio da UBS principal que está bastante precário e antigo recebeu verba federal no valor de R$ 395 mil para readequação e reforma do local. O projeto prevê troca de piso, móveis, pintura nova e entre outras melhorias. Outro convênio firmado com o Governo Federal no valor de R$ 512 mil será destinado para a construção de mais uma Unidade Básica de Saúde para Cedral.

Nossa reportagem foi às ruas ouvir a população e realizou uma enquete para saber como está o atendimento no município. Os entrevistados com idade entre 30 e 65 anos, avaliaram a saúde da cidade com nota 3,78. Nenhum entrevistado deu nota 10. A menor avaliação entre os municípios que passaram pelo “Raio-x” até agora.

“Os plantonistas são ruins. Estou há um ano e meio esperando a autorização de uma guia para o médico otorrino para o meu filho e até agora nada de agendamento. Minha filha precisava fazer um ultrassom e só depois que ela melhorou é que conseguiu marcar o exame. Isso é uma vergonha”. Essas são as palavras da mãe Daiana Aparecida Pereira Gomes que diz já estar cansada com o atendimento recebido na cidade.

E esse é apenas mais um dos problemas encontrados em Cedral. Sem médicos especialistas na cidade, a responsabilidade fica para o Estado e os pacientes são encaminhados para São José do Rio Preto. Só que com um número gigantesco de pessoas para agendamento, as guias de encaminhamento encalham na triagem e chegam a completar aniversário de até dois anos.

No município há, em média, cerca de 400 guias de exame e 400 de consultas paradas por falta de cotas médicas. “Já tivemos caso aqui de ligar para o paciente e ver se ele ainda está vivo”, brinca a coordenadora.

Perguntamos então como que a coordenadora avalia a saúde pública de Cedral. Mara diz que o sistema é excelente. “Temos uma boa resolutividade no atendimento emergencial. Hoje 25% do município tem convênio médico, então isso ajuda também a cidade. Mesmo tendo toda essa evasão de municípios a gente consegue dar conta e atender todo mundo” diz.

Interrogada no que deveria melhorar, ela afirma que um número maior de cotas de atendimentos com médicos especialistas seria um bom começo. “Infelizmente a saúde é um problema mundial. Acredito que ninguém consegue fazer uma gestão sem recursos. Hoje tudo custa muito caro e saúde não pode faltar nada, por que estamos lidando com vidas. As cotas são poucas, então isso causa uma revolta grande na população e que pode acarretar problemas para nosso município caso algum paciente tenha complicações”, explica.

Coordenadora de saúde de Cedral há cinco anos, ela acredita que em breve os prontuários sejam digitais, o que possibilitará uma maior varredura no sistema de atendimento da população.

Nossa reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde do Estado há mais de uma semana. Enrolando e fazendo jogo de empurra, a assessoria não respondeu as perguntas do jornal até o fechamento desta edição na quinta-feira, dia 7.

A falta de comprometimento de autoridades eleitas pelo povo leva a população de cidades pequenas, como a de circulação da Gazeta, a crer que a saúde nunca será como desejada. Por conta dos péssimos salários recebidos, médicos se sentem desanimados em trabalhar e muitos acabam faltando ou quando não, abandonando o emprego.

O que muitos governantes são sabem é que saúde não é algo que deixamos para segundos planos. Saúde precária pode matar.

Na edição de dezembro, a próxima cidade a participar da série de reportagens, é Nova Aliança. Vamos conhecer as reclamações da população e relatar como que os moradores estão sendo atendidos no município. Não perca, é dia 14, nas bancas.

(Fotos: Diogo De Maman/Gazeta do Interior)

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