Quase um ano depois, como é que está o atendimento das médicas cubanas na nossa região?

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Em abril já completa um ano que as médicas cubanas vieram para somar no atendimento público de saúde da nossa região. A contratação que é do Governo Federal faz parte do programa “Mais Médicos”. Porém como será que está sendo o atendimento dessas profissionais aqui na nossa região?

A Gazeta do Interior conversou com pacientes durante semanas e colheu receitas médicas prescritas pelas cubanas e o resultado é assustador. Colírio que deveria ser obviamente receitado para os olhos, foi prescrito para o tratamento de uma ferida no nariz.

Das 12 cidades de circulação da Gazeta do Interior, Potirendaba tem quatro profissionais, Bady Bassitt tem duas e Nova Aliança uma. Apesar da gravidade dos casos colhidos pela reportagem, a aceitação das médicas pela maioria da população é boa.

O programa “Mais Médicos” foi criado pelo Governo Federal em 2013 como um pacto de melhoria do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde, que prevê mais investimentos em infraestrutura dos hospitais e unidades de saúde, além de levar mais médicos para regiões onde há escassez e ausência de profissionais.

Aqui nas cidades da Gazeta elas atuam nos Postos de Saúde da Família em rodízio e são remanejadas de acordo com as necessidades de cada município. A remuneração das profissionais é garantida pelo Governo Federal e o município arca com as despesas de alimentação e moradia que gira em torno de R$ 1,5 mil cada profissional, variando de cada município.

Em Potirendaba, um paciente procurou a Gazeta depois que foi consultado com uma profissional Cubana. Ele recebeu medicamento que era para o olho e não para o nariz. “Eu estava com problema no nariz, recebi a receita e fui à farmácia comprar. Lá o farmacêutico disse que aquele medicamento era apenas para o olho e não para o nariz”, conta o paciente que pede para não ser identificado.

O medicamento receitado pela médica é o Maxitrol colírio. Médicos ouvidos pela Gazeta e segundo informações da bula, falam que este tipo de medicamente pode ser aplicado exclusivamente em vias oculares.

O aposentado João Aparecido da Cunha é outro que sentiu na pele a aplicação de medicamentos errados de uma das cubanas. Ele tomou 22 comprimidos do medicamento Furosemida que sua principal indicação e, consequentemente, uso, é na remoção de edema devido a problemas cardíacos, hepáticos ou renais.

“Meus pés começaram a inchar e depois daí comecei a sentir canseira, dor no corpo que não para”, comenta.

Após ser consultado com vários médicos do SUS e até médicos particulares, o aposentado descobriu que a doença dele era anemia.

A reclamação de outros pacientes é na questão da língua pronunciada por esses médicos. Muitas das vezes, idosos sentem dificuldades em entender o “espanhol Brasileirado”.

“Eu não consigo entender nada do que elas falam. Uma enfermeira tem que ficar do meu lado para ir traduzindo pra mim o que ela está falando”, fala o aposentado, Benedito Afonso Ruy, de Bady Bassitt.

Para a coordenadoria de saúde de Potirendaba, essa foi uma grande conquista e está sendo muito bom para o município. “As profissionais atuam na atenção básica do município, atendendo todas as demandas agendadas e espontâneas, contribuindo assim para a cidade, pois cumprem a carga horária garantindo ao paciente acessibilidade ao atendimento público”, diz.

Na cidade elas trabalham oito horas diárias na unidade e realizaram, desde o dia 12 de maio até dezembro de 2014 – 7.881 atendimentos. De acordo com a Portaria do Governo Federal, elas têm direito a uma folga na semana para estudo. Mais importante do que o número de atendimentos que é realizado é o acompanhamento que é dado ao paciente e a família durante o tratamento.

Sofrendo com refluxo há anos, a dona de casa, Marli Gonçalves de Ancântara que também mora em Bady Bassitt, diz que foi uma profissional cubana quem descobriu sua doença. “Eu não tinha mais paz, sofria com esse refluxo e ela quem me curou. Fui sempre bem atendida, elas tratam a gente com muito amor e preocupação. Nunca tive problema”, comenta.

Dona Marli tem razão, pois a medicina cubana é uma das melhores do País. Cuba hoje tem índices de saúde comparáveis ou até melhores que os Estados Unidos e os de países da Europa. Ele é o país do mundo com o maior número de médicos per capita, 6,7%, uma coisa extraordinária, três vezes a taxa dos Estados Unidos.

E com esse excedente, Cuba envia, há décadas, médicos para países pobres e que acontecem catástrofes naturais, por exemplo, ou carentes na assistência de saúde. Este programa – que tem a medicina cubana como protagonista – é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como modelo para o resto do mundo.

A OMS gostaria que o modelo cubano fosse adotado em outros países: esta medicina em que o médico vive na comunidade, esta medicina em que o médico está 24 horas à disposição dos pacientes naquele lugar onde ele vive.

A razão dessa resistência é a mudança do modelo da medicina que se pratica. O modelo cubano é diferente, muito mais popular, muito mais comunitário. Então há resistências a esta inovação.

E essa não é a primeira experiência de brasileiros com médicos cubanos. Em 1992 eles estiveram em Goiás para tratar de vítimas do Césio 137, contaminados com material radioativo e na década de 1990 foram a Niterói tratar de epidemias de dengue e meningite.

“A experiência está sendo ótima”, dizem médicas

Em entrevista à Gazeta duas das quatro médicas de Potirendaba, disseram estar contentes em trabalhar no Brasil. Yamile Nassiff Hernandez e Yamile Pupo Leyva chegaram para trabalhar na cidade em abril do ano passado.

“O trabalho está sendo ótimo. A primeira coisa que nós estamos tendo é maior experiência com o Brasil. O protocolo de atendimento de saúde do Brasil é bem diferente de Cuba, pois o Sistema de Saúde de Cuba é referência. Estamos satisfeitos em trabalhar aqui, pois conforme os dados provam aumentamos o número de atendimentos na cidade”, comenta Hernandes

Segundo ela, o mau hábito do brasileiro é que antes de procurar um médico, eles procuram farmacêuticos que os medicam. Além disso, outro problema é o brasileiro exigir do médico com o “eu quero”.

“O médico é quem vai orientar e prescrever o medicamento correto para o paciente. Nós médicos não só avaliamos apenas a parte clínica. Fazemos um pré-diagnóstico do paciente antes mesmo para passar um exame. Esse é um problema e que ainda precisa ser modificado nos brasileiros”, diz.

Para elas, Potirendaba é exemplo e referência médica. A cidade se preocupa com a saúde e exige que o atendimento público de saúde seja de qualidade.

Questionadas se voltariam para Cuba, elas são unânimes na resposta: claro, com certeza. Para Yamile Leyva, mesmo adorando trabalhar aqui no Brasil, não há nada como a casa da gente. “Como em qualquer lugar do mundo existem problemas, Cuba também tem problema. Mas temos amor à pátria, isso supera qualquer situação e não muda”, comenta.

Sobre as prescrições médicas feitas pelas cubanas de um modo geral, a explicação delas é de que farmacêuticos entendem de uma forma e médicos de outra as fórmulas dos remédios.

“Tem colírios que podem ser usados para o nariz por causa da fórmula que ele é feito. Muitas das vezes para a medicina é correto e para o farmacêutico não”, justifica Hernandes.

(Matéria publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de fevereiro de 2015)
(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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