Quadrilha especializada em furto de gado em Potirendaba treina cachorros para matar e desossa animais ainda na propriedade

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(Reportagem publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de setembro de 2017. Para receber este conteúdo antes de todo mundo, seja um assinante do maior e mais completo jornal da nossa região. Assine a Gazeta!)

Um número assustador de furto de gado vem tirando o sono de produtores rurais de Potirendaba. A quadrilha especializada chega de madrugada, embarca os animais em caminhões ou, muitas das vezes, mata a sangue frio e desossa no próprio pasto.

A Gazeta fez a rota desses criminosos e descobriu um grupo preparado, articulado e especialista no assunto. A carne, na maioria das vezes, é vendida para açougues da cidade sem nenhuma condição de higiene e desobedecendo qualquer regra da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vendida também para receptadores da região ou então consumida pela própria quadrilha em churrascos para comemorar os crimes. Os restos ficam alí mesmo no pasto, como se fosse um troféu da quadrilha para o dono ver.

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Quarta-feira, 6 de setembro de 2017, 20h00. A informação é de que em uma casa de luxo de Potirendaba, pelo menos seis homens fazem churrasco na frente do imóvel. Alguns com garrafas de cerveja nas mãos, outros com copos de wisk, cena totalmente comum se não fosse a procedência da carne que está na churrasqueira.

O homem que pede para não ser identificado, fala que cerca de duas vezes por mês, o grupo se reúne para comemorar os crimes e comer a carne furtada da própria cidade. “Fazem tudo para não dar bandeira, mas a gente que mora aqui há anos sabe do que eles são capazes. A gente acha que os ladrões são de fora da cidade, mas não, estão mais perto do que imaginamos”, revela.

Ele conta ainda que o destino principal da mercadoria é açougues de Potirendaba ou supermercados. “Carne barata dá margem para desconfiança na qualidade, pois não existe milagre diante de uma crise dessas e com o preço de trato para gado tão alto como está. Muitos acabam comprando, mesmo que sem higiene nenhuma e coloca para vender normalmente”, comenta o dono de um açougue que também prefere não se identificar.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP), não possui dados específicos desse tipo de crime, mas um levantamento feito pela Gazeta revela que, pelo menos, um furto é cometido toda a semana na cidade. Seguindo essa linha e de acordo com depoimentos dos próprios agropecuaristas, de janeiro até agora, a estimativa é de que já são mais de 40 furtos na cidade com 16 mil habitantes.

José Rede, de 72 anos, (foto em destaque) é um dos maiores produtores de gado da cidade e ele foi uma das vítimas do bando. Morador do bairro rural Boa Vista do Cubatão, a Gazeta foi até sua propriedade para achar os rastros dessa quadrilha.

Distante cerca de dez quilômetros da casa de José, o homem vai, todos os dias, até o pasto tratar dos animais, quando encontra um de seus bois morto com três balas na testa. A quadrilha especializada sabe dos horários e conhece a rotina dos donos dos sítios, mas naquele dia o bando deu azar e fugiu sem levar a carne.

Há cerca de um quilômetro dos animais, fica uma espécie de alojamento da quadrilha, uma sede de uma fazenda com geladeira e toda estrutura alugada pelo bando para atacar os vizinhos.

Seo José e o filho seguem os rastros dos veículos, descobrem o abrigo dos marginais e chamam a polícia. No local os policiais encontram cinco espingardas escondidas dentro de um cocho para tratar de gado e mais de 100 munições para as armas. Parte delas estava escondida em um cômodo fora da casa, próximo ao curral.

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O homem que não teve o nome divulgado chegou instantes depois e confessou ser o dono das armas, mas falou que as utilizava para caçar animais. O criminoso foi preso em flagrante e levado junto com as armas para a delegacia da cidade. No local, o delegado arbitrou fiança no valor de R$ 2 mil que foi paga e ele foi liberado.

Ele vai responder, em liberdade, por posse irregular de arma de fogo de uso permitido e as armas que foram apreendidas no local, passaram por perícia. A polícia não conseguiu relacionar o envolvimento do suspeito com o furto de animais, mas armas como as encontradas na propriedade dele são bastante usadas nesse tipo crime.

CÃES TREINADOS PARA MATAR

“Eles são espertos e muito bem preparados. Eles têm criação de cachorros treinados para matar, armamento pesado e motos para percorrer os locais e olhar as vítimas. A carne, além de Potirendaba, é vendida em José Bonifácio, Mendonça e Ibirá”, comenta o produtor José Rede.

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Cada animal furtado rende de 180 a até 400 quilos de carne, o que pela grande quantidade, comprova a comercialização. “Eles vendem descaradamente em açougues, mercados e até para pessoas comuns. Quatro pessoas não consomem tanta carne assim, em tão pouco tempo”, afirma Rede.

Após descobrir que sua propriedade servia de esconderijo para a quadrilha que furtava os animais, o dono cancelou o contrato de aluguel e pediu as terras de volta. “Eles dão um tempo porque veja que o cerco está se fechando, esperam a poeira abaixar, mas já começam de novo”, alerta o agropecuarista.

Na propriedade de José o prejuízo foi de cerca de R$ 20 mil. Eles levaram 11 animais da raça nelore, sendo que três deles foram mortos no local e outros 9 foram levados. Crueldade maior foi que a quadrilha levou duas vacas que tinham acabado de ter dois bezerros. Por serem bravos, um deles não pôde ser alimentado na mamadeira e acabou morrendo por falta da mãe.

Outro produtor que teve grande prejuízo foi Guilherme Garcia Botaro. O rapaz conta que no caso dele, não chegaram a matar os animais no pasto, mas utilizaram o meio da cana para embarcar o rebanho durante a madrugada.

“Eles (bandidos) cortaram a cerca, tocaram os animais até o meio do canavial e embarcaram 14 cabeças. Tive um grande transtorno, pois agora tive que tirar o gado daquele pasto e trazer o resto para mais próximo da casa da propriedade onde mora o caseiro. Um prejuízo aí de cerca de quase R$ 17 mil”, estima Guilherme.

TRABALHO DAS AUTORIDADES

A Polícia Civil de Potirendaba tem trabalhado nas buscas pelos criminosos, mas por falta de provas, acaba dificultando o trabalho. O Setor de Investigação acredita que são dois ou três indivíduos e que praticam o furto apenas para consumo próprio, onde quando acaba a carne furtada, cometem o crime novamente.

Ainda de acordo com a polícia, todo o mês, pelo menos dois crimes são registrados na delegacia, mas este número pode ser ainda maior, levando em consideração que o produtor não registra o caso.

Fomos saber com a Polícia Ambiental de São José do Rio Preto como é realizado o patrulhamento rural nestas cidades da região, principalmente aos finais de semana e à noite. Para o Capitão da corporação, Alessandro Daleck, primeiro é necessário que toda a vítima registre o boletim de ocorrência.

“É com base nestes dados que vamos traçar uma rota de patrulhamento e poder ajudar as vítimas. Se não formos comunicados dos crimes, não temos como saber quem são as vítimas”, explica.

O Capitão pede aos proprietários que passem a conversar com vizinhos, olhar com mais malícia quem visita suas propriedades e também reforce a segurança. “Os produtores também tem que se ajudar. É importante que o proprietário traga seus animais perto das casas, quando puder não deixar próximos de estradas, terem um caseiro e sempre manter contato com a polícia. É importante que quando avistarem uma viatura de patrulhamento rural abordar esta viatura, se apresentar, falar da propriedade e explicar que alí ocorrem furtos, que o policiamento vai ficar mais alerta aos casos”, orienta.

Daleck comenta que, diariamente, é realizado patrulhamento rural nas cidades da região. “Eu garanto que todo o meu efetivo percorre as cidades da região diariamente realizando ronda. Eles conhecem a maioria dos produtores, tem conhecimento dos crimes e tem êxito prendendo criminosos, como por exemplo, quadrilhas de furtos de tratores”, justifica o Capitão.

Em todos os casos citados na reportagem, a Polícia Civil disse que tem conhecimento e que continua o trabalho de investigação para deter os criminosos.

PREVENÇÃO

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Para prevenir, o produtor, Adriano Ribeiro, instalou câmeras de segurança em sua propriedade e monitora, em tempo real, tudo o que acontece no local. “Mesmo tendo caseiro, a intenção é evitar, já que tem tantos casos de furtos de propriedades aqui na nossa região. Tenho o equipamento que eu consigo dar zoom e monitorar todo o sítio até pelo celular”, comenta.

(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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