Poços artesianos estão secando nascentes em Potirendaba

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A construção desgovernada de loteamentos e a perfuração de poços artesianos estão secando nascentes em Potirendaba. Duas delas constatadas por especialistas já morreram.

Há décadas a perfuração de poços artesianos tem sido uma alternativa para adquirir água potável. Um poço artesiano retira água de reservas subterrâneas encontradas no solo e nos espaços entre as rochas – os aquíferos. Em sua maioria, a água extraída lá debaixo é mais pura e com maior porcentagem de sais minerais.

Grande parte da água para uso humano é subterrânea, e nas últimas décadas o Brasil teve um aumento considerável em sua utilização para o abastecimento público. Em Potirendaba, só nos últimos seis anos, a cidade ganhou cinco novos loteamentos com quase 800 novas moradias.

Para cada empreendimento, um poço foi perfurado e consequentemente, uma nascente próxima a três destes loteamentos secou. Dona Marilene Malvezzi Trevizan é a prova viva de que lutou até suas últimas forças para que isso não acontecesse.

“Desde quando moro aqui preservo esta nascente. Há alguns anos houve um projeto de preservação de nascentes pela prefeitura, fizemos o reflorestamento em volta dela, porém aos poucos ela foi secando. É uma tristeza muito grande ver uma cena dessas”, explica.

A propriedade dela é uma chácara que fica no bairro José Afonso Amato e até peixes ela chegou a criar com a água que brotava da nascente. “Tinha vida aqui, era muito lindo ver a natureza brotando do solo. Fui obrigada a tirar os peixes e criar um tanque artificial, é lamentável”, diz.

O coordenador de agricultura de Potirendaba, José Próvido Octaviani, acompanhou o caso e perto e explica que os loteamentos foram os vilões. “Além da perfuração dos poços, temos o asfalto e calçadas e isso faz com que a água da chuva volte para o solo e repõe estas nascentes, onde consequentemente faz com que elas sequem”, explica.

Outro exemplo de carinho com o meio ambiente vem do bairro São Marcos, em São José do Rio Preto. Um grupo de voluntários, empresas e vizinhos se uniram para preservar uma nascente e uma figueira centenária em uma área do bairro.

A dona de casa, Valdirene Dionísio Ribeiro, é uma das moradoras do local e que encabeçou a ideia desde o começo. Ela explica que a área cercada tinha diversas cabeças de gado e muito entulho, boa parte desse lixo teria sido depositada em 1997 da queda do edifício Itália em Rio Preto.

“Era um descaso total. Tinha muito entulho, sujeira em baixo da figueira, além de gado pisoteando a nascente. Foi uma longa batalha de pedidos na prefeitura até que nos ouviram. Coletamos cerca de 30 requerimentos e protocolamos na prefeitura até que vieram retirar o gado e preservar a área”, explica.

Em poucos meses a nascente foi ganhando vida e hoje brota com grande força e o que era apenas um brejo, já se transformou em um enorme lago. A intenção agora do grupo de moradores é fazer com que esta água vá para o Córrego dos Macacos, que desce para a represa municipal e que abastece 30% da população riopretense.

“Temos 130 árvores plantadas com apoio de empresas e de uma faculdade particular aqui de Rio Preto, já conseguimos doação de grama, a pavimentação em torno para a pista de caminhada e vamos transformar esse espaço em um local de lazer para o bairro”, afirma Valdirene.

(antes/depois)

Nascentes sao marcos (1)Nascentes sao marcos (2)

Nem todo mundo pensa no meio ambiente como estes moradores. O dono de uma fazenda às margens da rodovia João Neves, em Cedral, decidiu perfurar um poço artesiano para irrigar mais de um quilômetro de palmeiras. O objetivo? Decorar a entrada da propriedade.

Os mais de 200 pés de palmeira tem irrigação canalizada que joga água ao menos duas vezes por dia A exuberância das plantas extremamente bem cuidadas, enfeitam quase um quilômetro de cerca nas margens da fazenda.

O poço artesiano perfurado com o objetivo de irrigar a “decoração”, é cercado por outras quatro palmeiras. Ao lado, um reservatório que serve também para matar a sede do seu rebanho de gado.

palmeira imperial

Já na entrada de Potirendaba, diversas chácaras estão sendo construídas e outras estão prontas. Em oito delas, uma ao lado da outra, cada uma delas possui um poço artesiano perfurado com reservatório elevado.

A principal finalidade de um poço artesiano é a captação da água armazenada nos lençóis freáticos. A sua perfuração não é tão simples e o custo é relativamente elevado. A maioria dos poços perfurados e semiartesiano e usa bombas submersas que são instaladas dentro da lâmina de água do poço profundo.

Procuramos o Saneamento de Água e Esgoto de Potirendaba (SAEP), que afirmou que um Plano de Saneamento está sendo desenvolvido no município e deverá ser colocado em prática em breve. O plano fará com que quem tenha poço artesiano pague um valor proporcional ao extraído de água do solo, o que já existe atualmente em São José do Rio Preto, pelo Serviço Municipal de Água e Esgoto (SEMAE).

Não há um valor médio para a perfuração de um poço, mas a Gazeta apurou que a maioria das empresas cobra em torno de R$ 500 por metro perfurado. Um poço de 50 metros de profundidade teria o custo de R$ 25 mil.

Para perfurar um poço é necessário entrar com um pedido no Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (DAEE). De acordo com o assistente técnico do Departamento, Romildo Eugênio de Souza, existe uma portaria do DAEE e também uma legislação estadual que regulamenta a perfuração, porém que a fiscalização só é feita quando há denúncia.

“Geralmente a própria empresa contratada pela pessoa para perfurar o poço entra com o pedido, mas a fiscalização é feita quando há uma denúncia. Esses poços captam água do lençol freático e não dos aquíferos, o que pode fazer com que a nascente seque em um determinado local, mas brote em outro ponto”, afirma.

De acordo com o DAEE, Potirendaba  possui 62 poços artesianos perfurados, porém, o que não condiz com a realidade do município. Somente a prefeitura possui 32 unidades perfuradas, onde os outras 30 estariam em chácaras, sítios e residências, bem diferente da quantidade que se encontrada em praticamente todas as propriedades.

(Reportagem publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de outubro de 2018)
(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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