Indústrias de Potirendaba são responsáveis pelo grande volume de esgoto que vai parar na represa da cidade

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Um problema que há anos se arrasta e que cada dia que passa só piora. A Gazeta do Interior foi a fundo para tentar entender o grande problema dos milhares de litros de esgoto que são despejados diariamente na represa da cidade, por falta de um emissário. Descobrimos que as indústrias são as principais responsáveis.

A construção do emissário de esgoto do bairro Luís Pastorelli para o Centro da cidade é problema antigo e mostrado com frequência pelo jornalismo da Gazeta. No bairro, 216 casas e 45 indústrias produzem juntas, milhares de litros de esgoto, por dia, que deveriam ser lançados na rede através de uma tubulação que chegaria até a estação de tratamento do município.

Porém isso não vem acontecendo por falta de um emissário cuja obra custa cerca de R$ 3 milhões. Verba esta que, segundo a ex-prefeita da cidade, Gislaine Franzotti, conquistou durante seu mandato, mas que por falta da liberação de recursos por parte do Governo do Estado, não pôde ser licitada.

Nossa reportagem foi ao local que fica dentro de uma propriedade rural, atrás de uma creche. Há metros de distância é possível sentir o mau cheiro e ouvir o barulho da quantidade de litros de dejetos que jorra 24 horas pela tubulação que não tem capacidade de receber o alto volume de esgoto.

Como não há vazão, o esgoto jorra como um chafariz dentro da propriedade que vai escorrendo pela área de pastagem até chegar ao leito do rio. Há menos de três quilômetros do local fica a represa da cidade que já virou grande ponto de reclamação no município por causa do mau cheiro e a quantidade de pernilongos.

O que já foi e era para ser o cartão postal da cidade, hoje é de abrigo de usuários de droga e até abrigo para criminosos. No local existe um bar que está totalmente destruído, pichado, com vidros quebrados e muita sujeira.

No dia 27 de novembro de 2012, cerca de 7 mil peixes que existiam no local acabaram morrendo por causa do derramamento de esgoto que aconteceu na área. Seis anos depois a represa é um completo de abandono e descaso do poder público e das indústrias que continuam jogando esgoto na rede sem nenhuma providência.

No Distrito Industrial da cidade existe um frigorífico, lavanderias de jeans e uma indústria de refrigerantes. Juntas, elas são responsáveis pela produção do grande volume de esgoto e sujeira que são lançados 24 horas na rede que não suporta a quantidade de dejetos e acaba vazando.

As lavandeiras de jeans lançam quantidades altíssimas de metais pesados que contem na roupa. Já a indústria de refrigerantes realiza a lavagem das garrafas pets para reciclagem e com isso rótulos e outros resíduos também vão para a tubulação. O frigorífico é responsável por lançar dejetos da lavagem dos animais já abatidos e até restos de sangue o que é extremamente proibido pela Companhia de Tecnologia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Para o chefe de tarifas e serviço do Saneamento de Água e Esgoto de Potirendaba (SAEP), Jessy James Innocenti, o problema já deveria ter sido resolvido há 15 anos. “A cidade foi crescendo e a rede de esgoto foi ficando pequena para a quantidade produzida. Quando foi criado o bairro não havia uma dimensão da quantidade de indústrias que se instalariam aqui e muito menos o porte que elas atingiriam”, explica.

Jessy fala ainda que a única solução para o caso é a construção do emissário e que as empresas poderiam colaborar na ação. “Infelizmente só o poder público não dá conta de resolver a situação. As empresas estão preocupadas com o lucro, mas acabam se esquecendo do meio ambiente que é o fator fundamental da história. Se as empresas tivessem um sistema de reciclagem desse esgoto, caixas de contenção, já estariam colaborando e muito”, afirma.

Segundo um dos diretores da indústria de refrigerantes, Humberto Franzotti, a empresa já possui lagoas de tratamento e também sistemas de peneiramento, mas que infelizmente não estão sendo suficientes. “Nós estamos dispostos a nos unir com prefeitura e demais empresas para ajudar a encontrar uma solução definitiva para este problema. Vamos providenciar um plano dentro da empresa para começar a solucionar o caso”, promete.

Em outro canal perto do rio, fora da rede de esgoto, nossa reportagem encontrou outro vazamento de esgoto com uma água em tom azulado aparentando ser das indústrias de lavagem de jeans. Segundo as normas ambientais, o esgoto destas empresas precisam ser, obrigatoriamente, tratados em lagos de tratamento próprias para depois serem lançados na rede doméstica.

O proprietário de uma indústria de lavagem de jeans da cidade, Cleyton Rodrigues, afirma que cumpre com todas as normas e exigências municipais e principalmente da própria Cetesb. “Nós temos uma estação de tratamento dessa água produzida, onde realizamos análise há cada seis meses e cumprimos com toda as licenças. Não temos metais pesados nesta água, pois realizamos apenas a lavagem do jeans. Temos também um sistema de peneiras para retirada da parte sólida como pedras, linhas, algodão, etc”, diz.

O gerente da Cetesb de São José do Rio Preto, José Benites de Oliveira, diz que vai enviar um técnico nesta terceira semana de fevereiro para Potirendaba para analisar o caso. Com base nas fotos e imagens feitas pela Gazeta, o gerente garantiu que formará uma documentação para poder auxiliar o município.

“Já entendemos que não adianta autuar ninguém. O trabalho agora é realizar uma análise desse esgoto, levantar toda a documentação e reunir forças para solucionar definitivamente o problema”, garantiu.

O prefeito de Potirendaba, Flávio Alves, afirma que enviou nesta segunda semana de fevereiro um ofício ao Governo do Estado solicitando a liberação de recursos para a construção do emissário. “Enquanto não conseguimos esta verba, estamos tentando firmar uma Parceria Público Privada com loteadores do município para que eles construam o emissário, mas isso infelizmente também requer tempo. Precisamos resolver isso o mais rápido possível, é lamentável ver nossa represa naquela situação”, afirma.

No frigorífico da cidade ninguém atendeu nossas ligações para dar explicações sobre o assunto. O caso será encaminhado pela reportagem ao Ministério Público do município.

(Reportagem publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de fevereiro de 2018)
(Foto: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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