Falta de acessibilidade nas três principais cidades dificulta a vida de deficientes físicos

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Potirendaba, Tabapuã e Uchôa ainda estão longe de serem cidades modelos no quesito acessibilidade. Falta de rampas de acesso, rampas com inclinações fora de padrão, calçadas inacessíveis ou impedidas e até falta de banheiros são alguns dos problemas que deficientes físicos enfrentam nesses três principais municípios de circulação do jornal.

Uma lei assinada pela Presidência da República em 2000 estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade de deficientes ou de pessoas com mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação.

No Brasil, segundo dados do portal Deficiente Online, há 24,5 milhões de portadores de deficiências no Brasil. Boa parte deles necessita de cadeira de rodas para se locomoverem, são os chamados cadeirantes. Muitos têm uma vida ativa, trabalham e estudam e, por isso, precisam se movimentar pelas cidades.

Donizete Aparecido Machado, de Potirendaba, de 52 anos, aos seis meses de vida sofreu paralisia infantil e nunca pôde andar. De lá pra cá, ele convive com as dificuldades da vida e também da cidade.
Durante 36 anos Donizete morou em São Paulo e diz que no quesito acessibilidade, a capital é bem melhor que o interior. Há 16 anos morando em Potirendaba, ele conta que já passou por diversas situações constrangedoras e difíceis na cidade.

Hoje casado e pai de uma filha, o homem que trabalhou vários anos em uma transportadora optou por viver uma vida mais tranquila em Potirendaba, porém não imaginava que enfrentaria tantas dificuldades para se locomover.

Uma delas foi recente quando ele teve que urinar no meio da rua por que não havia banheiro acessível para ele. “Um rapaz viu e me questionou. Falou: Você não tem vergonha não? Eu falei: Meu amigo, não tem banheiro para eu usar, não tenho outra escolha”, disse.

Pedimos para que Donizete listasse os locais em que ele encontra dificuldades para acessar na cidade. Ele disse que prédios privados como mercados, açougues e padarias são mais acessíveis do que prédios públicos.

Um local que impede o acesso de Donizete é o Posto Central de Saúde. Uma rampa com mais de 60 centímetros de inclinação, ele explica que é impossível subir e a cadeira corre o risco de inclinar pra trás.

A rampa de acesso da calçada da prefeitura também é outro ponto que ele afirma não conseguir acessar pelo fato da inclinação. “E se eu precisar ir a um departamento no andar de cima lá não tem elevador”, destaca.

Outros dois locais que Donizete não entra é o banheiro público da praça da matriz e o banheiro da rodoviária. Nossa produção foi ao local e em nenhum dos dois há banheiros projetados para cadeirantes.
Ele conta que o banheiro do Hospital de Potirendaba ele também não pode usar, pois além da cadeira não entrar, o local não cumpre às normas de acessibilidade como ter apoio de mão e suporte para a cadeira.

Na lei fala que a construção, ampliação ou reforma de edifícios públicos ou privados destinados ao uso coletivo deverão ser executadas de modo que sejam ou se tornem acessíveis aos deficientes ou de pessoas com mobilidade reduzida.

Além disso, a lei prevê ainda que os edifícios deverão dispor, pelo menos, de um banheiro acessível, distribuindo-se seus equipamentos e acessórios de maneira que possam ser utilizados por deficientes. De 2000 quando a lei foi assinada, até hoje, várias reformas foram realizadas nesses locais citados e nada mudou, apenas rampas de acesso foram instaladas ou reformadas.

Outra questão que muita gente não deve saber é que no artigo 23 da lei diz que o Governo Federal destina, anualmente, dotação orçamentária para as adaptações, eliminações e supressões de barreiras arquitetônicas existentes nos edifícios de uso público de sua propriedade e naqueles que estejam sob sua administração ou uso.

Bastante descontraído e demonstrando superação, Donizete não se abala com a dificuldade que a vida lhe impôs e se mostra superior à falta de acessibilidade em seu caminho. “Eu fiquei deficiente, mas não morri. Tenho vida e tenho a minha família. O importante é viver de bem com a vida e o resto a gente vai atrás”, fala brincando.

Em nota, a prefeitura de Potirendaba informou que o projeto de reforma de todas as unidades de saúde do município inclui as normas de acessibilidade.

Quanto ao Hospital, a nota disse também que foi realizada reforma que incluiu à Lei de novas adaptações, mas não informou sobre o banheiro citado na reportagem.

A prefeitura aproveitou para dizer que as duas creches novas e o Centro de Convivência do Idoso que foram construídos recentemente seguem as Leis de acessibilidade. Disse também que todas as escolas da rede municipal e a circular gratuita também possuem acessibilidade para deficientes.

Porém não informou sobre o banheiro da rodoviária citado na reportagem e o prédio da prefeitura que foi reformado recentemente e não recebeu melhoria na calçada e nem instalação de elevador.

Sobre a Praça da Matriz, a prefeitura disse que conquistou verba para trocar o calçamento, mas não informou se os banheiros serão reformados de acordo com o que exige a lei.

Em Uchôa são poucos os lugares que os deficientes físicos têm espaço para chegar ao local sem depender de outras pessoas. Na Praça da Matriz, João Birolli, há duas rampas de acesso aos cadeirantes, mas só na parte de cima da praça, já na área de baixo, o cadeirante tem que descer o degrau da calçada. A coisa fica pior se ele quiser ir à rodoviária onde terá que descer o degrau, passar onde é o local dos ônibus pararem e subir outro maior ainda. A dificuldade aumenta quando precisa ir ao banheiro, já que nenhum dos banheiros é adaptado para cadeirante.

Nas agências bancárias felizmente o problema é menor. O Banco do Brasil tem a rampa de acesso e a pista tátil, que auxilia o deficiente visual, mas o problema maior é na porta giratória, onde impossibilita a passagem da cadeira de rodas. Na outra agência do mesmo banco o problema encontrado é a falta de rampa e a pista tátil. Já no Santander há elevador para auxiliar o cadeirante, por não haver rampa de acesso. No Bradesco há rampa, mas ela fica no meio da calçada e há pelo menos 15 metros do local ideal para o cadeirante.

Nos órgãos públicos visitados pela reportagem em que deficientes físicos poderiam ir sem problema algum é Fundo Social, a Delegacia, o Velório Municipal, o Centro Espírita, a Escola Dr. Paulo Birolli Netto, a Escola Professor Pedro Elias, a Praça do São Miguel (incluindo a rodoviária do espaço), a Estação Cultural, a Praça José Fernando Gomes (Balãozinho), a Drogaria São Miguel e a Lotérica no centro.

Órgão importantes da cidade como a Prefeitura Municipal gera transtornos aos deficientes. Na parte de baixo do prédio há 13 degraus que vão exigir muito esforço do cadeirante caso ele opte por lá, já que os degraus não são tão altos e o espaço para manobrar é grande.

Porém se ele preferir pela rampa, será necessário muita coragem para descer uma inclinação de 45º, aproximadamente, e, ao chegar ao vão, há um espaço de 20 cm que pode levar a pessoa a uma queda devido a velocidade e o espaço aberto até chegar na calçada novamente.

Na Câmara Municipal uma rampa de acesso foi construída, mas até o deficiente chegar lá é complicado devido à distância. O ideal seria a construção de uma rampa ao lado das escadas.

Há pouco tempo na cidade foram criadas duas vagas para deficientes físicos, uma é atrás da igreja e a outra quase em frente ao banco Santander. Isso é um bom sinal, mas é complicado entender que mesmo um projeto sendo recente não foi possível pensar em quem tem dificuldade de se locomover.

Exemplos de mau planejamento podem ser vistos nas praças da cidade. Uma é a José Fernando Gomes, do bairro Jardim Progresso e a outra a Praça Gertudes Costa Baldino, no bairro Sara Vida, reinaugurada e inaugurada em 2010 e 2012, respectivamente. Na primeira há apenas uma rampa de acesso que dá acesso ao local, nada mal, se não tivesse um degrau no meio da praça, o que impede o trânsito tranquilo dentro da área de lazer.

Já na Praça do bairro Sara Vida, embora mais nova, se esqueceram de fazer qualquer tipo de rampa para facilitar a vida de quem precisa. Igualando com a Praça dos Coqueiros, está antiga e outra inaugurada em 2012 também, a Praça João Luiz Marchi.

Existe ainda outra praça no bairro São Miguel que não tinha nome, mas uma história curiosa. Ela até tem rampa, mas o cadeirante terá que dar a volta de cerca de 30 metros ou se arriscar no degrau que há nela.

Infelizmente pessoas com necessidades especiais não são constantemente lembradas pelo poder público, o que dificulta muito a vida de quem quer levar uma vida normal, sem depender de ninguém. É o caso do aposentado Odenir Antônio Marques, de 56 anos, que assim como o Donizete, também teve paralisia infantil quando criança e sempre teve dificuldades na locomoção. Ele não tem movimentos na perna esquerda, a direita é muito fraca devido à água no joelho e só anda de cadeiras de rodas. “Faço tudo de cadeiras de rodas dentro de casa, varro o quintal, arrumo a cozinha, lavo roupa”, conta Barreirito como é conhecido.

Barreirito tem movimento parcial da perna direita o que faz ele às vezes utilizar a muleta para ir ao bar da rodoviária para encontrar com amigos. Porém, o degrau que tem lá o torna refém da boa vontade de terceiros em ajudá-lo a subir. “É muito difícil subir lá, tenho que segurar no ferro e fazer um esforço danado”, conta o aposentado.

Outro lugar que o aposentado frequenta é o Supermercado Santa Maria. Ele gostaria muito que o rebaixamento de guia fosse feito na esquina para acessar o comércio onde faz compras. Barreirito conta que é necessário pedir aos funcionários buscarem o que ele precisa.
Há um ano ele comprou uma Honda Bis adaptada para facilitar a locomoção já que, segundo ele, andar de cadeiras de rodas nas ruas em Uchôa é complicado. “É difícil, não tem como, há cada momento tem outro obstáculo”, fala Barreirito.

A prefeitura de Uchôa disse por nota que está fazendo as rampas de acessibilidade aos poucos de acordo com as prioridades. Nas praças tão sendo feitas juntamente com as reformas das mesmas. Quanto ao prédio da prefeitura, a nota diz que a rampa de acessibilidade será feita junto com a reforma, porém a prefeitura não estabeleceu prazo.

O caso da jovem Luara da Silva Cordeiro, de 20 anos é ainda mais complicado. Há 6 anos ela sofreu um acidente de carro e perdeu os movimentos das pernas tendo agora que se locomover com cadeira de rodas.

Locomover não seria o verbo correto a ser usado, já que Luara diz evitar sair de casa devido a falta de facilidades em todo o lugar. “Não é só aqui na cidade, em todo lugar. Cidades grandes como São Paulo também é muito difícil, eu evito sair, pois as ruas são cheias de buracos, as calçadas todas desniveladas, as rampas de acesso são quase inexistentes e o que considero pior, o transporte público que nunca tem elevador ou espaço reservado, o que me faz viajar no corredor dos ônibus e pedir ajuda ao motorista para entrar no veículo”, afirma.

“Quando tenho de fato que sair, vou acompanhada para que me ajudem a subir calçadas e etc. Sem contar que não continuei meus estudos por falta de transporte adequado, já que para fazer faculdade teria que ir para as cidades vizinhas”, conta Luara sempre com um sorriso no rosto que afirma ainda ter o sonho de fazer faculdade de Letras.

Através de nota, a assessoria de imprensa da prefeitura de Tabapuã informou que todos os pontos públicos como Ginásios esportivos, escolas, praças e inclusive o novo paço municipal tem todas as adequações necessárias para os deficientes físicos.

Segundo trecho da nota, nesse quesito ainda está inclusos os ônibus da frota municipal que sofreram alterações com espaço especial para cadeirantes e elevadores, bem como nas festividades que sempre são contratados banheiros químicos especiais.

Porém, um ponto bastante crítico para quem utiliza cadeira de rodas é o acesso à igreja da matriz. A praça já mostrada várias na Gazeta, o piso está todo deteriorado e cheio de pedras impedindo assim o acesso. Apenas a igreja tem rampa de acesso.

Para Luara muitas pessoas têm vontade de ajudar, porém não há o conhecimento sobre o tipo de necessidade dos deficientes. “A vontade de ajudar existe sim e vem de todos os lados, mas por outro lado, existem lugares que tem a rampa de acesso, porém com uma inclinação quase que impossível de ser acessada”.

(Fotos: Luiz Aranha, Diogo De Maman e Jonas Garcia/Gazeta do Interior)

(Matéria publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de julho de 2014)

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