Em oito meses, motoristas de Potirendaba pagam quase R$ 100 mil de multas por imprudência

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Para quem ainda acredita que nas pequenas cidades do interior não há fiscalização e tudo é permitido no trânsito deveria começar a rever os conceitos. De janeiro a agosto deste ano, 467 multas foram aplicadas aos motoristas de Potirendaba e quase R$ 100 mil foram arrecadados pelo Governo com a imprudência dos “folgados do sertão”.

O levantamento feito pela Polícia Militar a pedido da Gazeta do Interior, aponta falta do uso do cindo de segurança, falar ao celular enquanto dirige, conduzir veículo sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e falta de licenciar veículos. Motoristas imprudentes e que acham que as leis não devem ser cumpridas na pequena cidade de 16 mil habitantes, estão pagando um preço alto por isso.

A falta do uso do cinto de segurança é a campeã dos registros com 248 multas do começo do ano até agosto. A infração custa R$ 127,69 e o motorista leva cinco pontos na habilitação. Em segundo lugar vem o uso do celular ao dirigir com 99 ocorrências, sendo que o valor é de R$ 85,13 e quatro pontos.

Por incrível que pareça os motoristas de Potirendaba dirigem sem habilitação. Nesses oito meses, 79 foram multados por não terem ou dirigirem sem o documento. A multa para este tipo de infração é de R$ 574,62, é considerada gravíssima e rende sete pontos. A falta de licenciamento dos veículos é outra imprudência grave cometida pelos “folgados do sertão”. 41 multas no valor de R$ 191,54 foram aplicadas desde janeiro. Cada motorista ganha também sete pontos, além de ter o veículo guinchado e ter que arcar com todas as despesas de diária de pátio e guincho.

A imprudência por parte dos condutores vai além do levantamento feito através do número de multas. Em um período de 15 minutos em que nossa equipe ficou no principal cruzamento da cidade, várias irregularidades foram flagradas.

A principal delas é a falta do uso de cinto de segurança. Imprudência esta que reflete no número aplicado de multas aplicadas pela Polícia Militar da cidade. Nossa equipe constatou de que cada dez motoristas, sete não usam o item obrigatória de segurança que salva vidas.

O estudante Emerson Octaviani que foi um dos flagrados pela nossa reportagem afirma que é hábito, motoristas de cidade pequena não usar o cinto. “Eu saí de casa e nem me lembrei de colocar. A gente já entra no carro e já tem que sair, acaba nem lembrando. Estava em Rio Preto de cinto, cheguei aqui e tirei”, confessa.

Em outro flagrante, o motorista usando o cindo e o filho dele, de apenas 12 anos, sem o item obrigatório de segurança. Questionado sobre o menino não estar usando o equipamento, o pai se cala.
Dirigir com o braço para fora da janela também é infração grave e que os motoristas de Potirendaba adoram praticar. O condutor paga uma multa de R$ 85,13 e leva quatro pontos na habilitação. Nos 15 minutos no local, nossa reportagem registrou 15 motoristas com o braço para fora da janela do veículo. Um a cada minuto.

Avançar o sinal vermelho na cidade em que tem apenas três semáforos talvez não seria imprudência? É sim e várias pessoas foram flagradas por nossa equipe avançando o sinal. A multa é gravíssima, prevê também sete pontos e custa no bolso do infrator R$ 191,54.

Sertão sem Leis

Se não bastasse o desrespeito às leis de trânsito dentro da cidade, as vicinais de acesso são outro cenário aos infratores que adoram praticar imprudências. A Gazeta obteve com exclusividade, um vídeo gravado por jovens dirigindo em alta velocidade na vicinal Angelo Miqueletti que liga Potirendaba a Nova Aliança no domingo dia 17 de agosto.

Com um celular, o passageiro filma o motorista Allan Pereira Deodato, de 20 anos, dirigindo um Astra a 160 km/h na estrada que tem limite de velocidade de no máximo 80km/h. No início da gravação, o passageiro afirma que Allan é o responsável por ter derrubado um poste de energia elétrica no bairro do Rosário no dia 8 de setembro do ano passado.

A Gazeta mostrou o acidente que deixou, pelo menos, 500 moradores sem energia elétrica. Allan dirigia uma Montana e bateu na subida que vem do bairro rural, Cana do Reino.

As imagens do acidente com o Astra mostram ainda o momento em que Allan perde o controle da direção e capota o veículo. O carro ficou totalmente destruído e nenhum dos quatro ocupantes se machucou.
Segundo o boletim de ocorrência, o motorista estava com a habilitação vencida há mais de trinta dias. Para a polícia ele contou que tentou desviar de um carro e acabou perdendo o controle da direção.

Nossa produção tentou entrar em contato com Allan, mas ele não foi encontrado para falar sobre o acidente.

Atos de imprudência que colocam não só a vida do próprio condutor em risco, como também de famílias inocentes que cumprem as leis para evitarem tragédias.

O número de vítimas no trânsito brasileiro é o maior do mundo, segundo o levantamento do Observatório Nacional de Segurança Viária, divulgado pela revista Veja em março deste ano. Os acidentes de carro superam homicídios ou câncer, por exemplo. Segundo registro no seguro DPVAT (Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre), o país tem 31,3 vítimas fatais por 100 mil habitantes; mais que o verificado no Catar, El Salvador, Belize e Venezuela.

Só no ano passado foram contabilizadas pelo DPVAT 60,7 mil mortes, número 4% superior em relação a 2011, além de 352 mil casos de invalidez permanente. A maior parte dos acidentes foi registrada entre jovens de 18 e 34 anos – 41% do total -, o equivalente a duas tragédias como a da Boate Kiss por semana. Ainda de acordo com o estudo, mais de 95% dos desastres viários são resultado de irresponsabilidade e imperícia dos motoristas e 40% das vítimas estavam em motocicletas.

O Capitão da Polícia Militar de José Bonifácio, Maurício Marques, acredita que o grande fator que influencia esses motoristas a deixarem de cumprir as leis é o fato da ilusão da impunidade em ser autuado. “Crença de que com ele nada vai acontecer, ou seja, não se envolverá em acidentes”, diz.

Outro fator importante destacado pelo Capitão é falta de educação no cumprimento das leis de trânsito. “Falta de seriedade do aluno quando está cursando a autoescola; mau exemplo dos amigos e familiares; preguiça; são apenas alguns deles. O respeito às regras de trânsito salva vidas”, alerta Maurício.

(Matéria publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de setembro de 2014)
(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior e reprodução vídeo)

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