Consumo desenfreado de água na região já afeta mananciais e preocupa autoridades; Uchôa decreta racionamento

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Em destaque um mosaico de fotos dos desperdiçadores de Potirendaba. Na segunda imagem, o flagrante feito pela nossa equipe de moradores que acordam de madrugada para tentar driblar a fiscalização

Nenhuma das 12 cidades de circulação do jornal Gazeta do Interior tem rios ou represas que servem de fonte de abastecimento para a população. Portanto, o consumo de água desses municípios é exclusivo de um dos maiores aquíferos de água subterrânea do planeta, o Aquífero Guarani. Só que a falta de chuva e o consumo excessivo já estão afetando o manancial e está fazendo com que autoridades olhem mais de perto para o problema. Em Uchôa, a prefeitura da cidade já decretou racionamento.

O Guarani abrange territórios de países como Uruguai, Argentina, Paraguai e principalmente o Brasil, ocupando 1.200.000 km² . Nomeado em homenagem ao povo Guarani, segundo o site Wikipedia, o aquífero tem uma espessura média de 250 metros e um volume de aproximadamente 45.000 km³. A profundidade máxima é por volta de 1.500 metros, com uma capacidade de recarregamento de aproximadamente 160 km³ ao ano por precipitação. Devido a uma possível falta de água potável no planeta, que começaria em vinte anos, este recurso natural está rapidamente sendo politizado, tornando-se o controle do Aquífero Guarani cada vez mais controverso.

Ainda de acordo com o site, com a crise hídrica este ano no estado de São Paulo, o governo paulista pediu um estudo de viabilidade da ampliação do uso do aquífero à Universidade de São Paulo. Uma equipe de geólogos da universidade elaborou um estudo do impacto nas reservas de água, considerando a retirada adicional de até 150 m³ de água por hora para avaliar se o Guarani suportaria este acréscimo de consumo a longo prazo, considerando a estiagem. Com uma precipitação pluviométrica normal, calcula-se que o aquífero suporta uma retirada total de até 1 m³ por segundo ou 3.600 m³ por hora.

No Brasil, oito estados são abrangidos pelo Guarani. São Paulo é onde sua potencialidade mais se aproxima daquela inicialmente divulgada. A cidade de Ribeirão Preto é toda abastecida por água subterrânea extraída dele. Já em Santa Catarina e Paraná, em extensas áreas do aquífero a água não é potável, por excesso de sais. Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais são estados que requerem mais estudos, embora neles as águas tendam a ter boa qualidade.

Potirendaba: Moradores acordam de madrugada para lavar calçadas e tentar driblar a lei

A situação no município está cada vez mais preocupante e aparentemente poucos moradores estão conscientes da gravidade problema. Flagrantes feitos por nossas equipes mostram que pessoas estão acordando de madrugada no sentido de tentar driblar a lei e não serem multadas.

A cidade, assim como em todo o país, vive uma das maiores e piores secas das últimas décadas. Em entrevista exclusiva a Gazeta, a prefeita da cidade, Gislaine Franzotti, mostrou o mapa da realidade de abastecimento do município que é um dos poucos da região que ainda não está em racionamento.

Gislaine diz que o planejamento de seu governo e manobras administrativas fizeram com que Potirendaba hoje, mesmo diante da crise, pudesse usar água sem racionamento. De acordo com ela, nos últimos anos de seu governo vários poços foram perfurados com recursos próprios. Reservatórios de água que não tinham utilidade nos bairros foram retirados e colocados em atividade no complexo da sede do Sistema de Água para suprir a demanda da população.

Potirendaba tem atualmente tem 23 poços, desse número, oito foram construídos nos últimos seis anos. Os quase 16 mil moradores gastam, por mês, uma média de 67,3 milhões de litros de água.

Paulo Roberto Mansano Garcia, coordenador do Saneamento de Água e Esgoto de Potirendaba (SAEP), explica que a cidade atualmente explora o Aquífero Bauru, pois o Guarani ainda está à baixo dele e é mais profundo. “Como medida de resolver os problemas futuros com o abastecimento, o município, o único da região, foi contemplado com um poço que custou R$ 2,8 milhões para captação do Guarani”, fala.

Além do poço, a obra que é do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) junto com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), terá ainda a construção de um reservatório metálico com capacidade para um milhão de litros. Isso representa a produção de 150 mil litros de água por hora.

Porém, se os moradores não economizarem e utilizarem essa água com consciência, Gislaine alerta que Potirendaba pode sim ficar sem água. “Já estamos estudando a medida de racionar a água. Eu como prefeita peço que denunciem o desperdiço, pois infelizmente só punindo que as pessoas aprendem. Gostaria de deixar bem claro que a medida em multar não é uma ação para arrecadar dinheiro e sim para o bem do próprio povo, no entanto que até agora ninguém foi multado”, diz.

Segundo a prefeita, de quando a lei começou a ser fiscalizada até agora, 200 pessoas foram advertidas e 40 notificadas. A lei proíbe lavar calçadas, ruas e veículos com água tratada. A fiscalização fica por parte da própria prefeitura que primeiro aplica advertência, na reincidência uma notificação por escrito e multa que varia de R$ 402,80 a R$ 1.007,00. Além da multa, o infrator terá o fornecimento de água cortado por até 48 horas e para religação, além de pagar a multar, terá que pagar as taxas de corte e religação.

Ante a reincidência do infrator, a lei prevê ainda acréscimo de mais 24 horas sem água a cada nova suspensão. Para Gislaine, essa seca veio para fazer com que a população faça o uso racional da água. “Eu penso que é uma questão cultural. Enquanto um pensar que o outro deve também economizar, ninguém vai economizar nada. Cada um deve pensar em todos para que assim a economia seja feita”, explica.

Por onde nossas equipes passam em Potirendaba é possível flagrar atos de desrespeito com o produto mais precioso e essencial da humanidade que está acabando. Durante uma madrugada nossa produção percorreu várias ruas da cidade e pôde flagrar moradores lavando calçadas e até o portão da casa. Uma forma de tentar driblar a fiscalização.

O descaso é geral. Nossa reportagem flagrou funcionários públicos nos últimos meses levando prédios públicos, a própria casa com caminhão pipa e até uma funcionária que se esquecia de acordar para desligar a bomba de captação de água.

Gislaine coloca os meios de comunicação da prefeitura à disposição onde podem ser enviadas fotos das denúncias: fale@potirendaba.sp.gov.br ou através da ouvidoria do site: www potirendaba.sp.gov.br.

Tabapuã: Município iniciou campanha de conscientização

Assim como em Potirendaba, na cidade a preocupação das autoridades está grande, mas a população não está nem aí com o problema. Várias de pessoas foram flagradas por nossa equipe nos últimos dias lavando calçadas, carros e até a rua com água potável.

A prefeitura de Tabapuã implantou na cidade uma ação de conscientização. A Divisão de Água e Esgoto (DAE) começou na cidade uma campanha de conscientização para a economia de água.

A ação consiste em orientar a população com várias ações como palestras em escolas a não desperdiçar água lavando calçadas, carros e quintais. Publicações em redes sociais com dicas diárias de como economizar, palestras informativas da necessidade de economia e importância da água, pedágio nas principais vias da cidade com a colagem de adesivos e entrega de panfletos também farão parte do projeto de conscientização. Além do contato direto com os moradores de casa em casa, toda a população receberá um adesivo de “Sou um cidadão consciente” para os que economizarem água.

Segundo o diretor do DAE, Aguinaldo Carvalho, até agora a cidade não enfrenta nenhum problema de seca nos poços, mas ele alerta dos riscos de não economizar. “Agora estamos conscientizando, depois vamos passar a notificar e vamos começar a multar também. Todos nós devemos economizar para não sofrermos as consequências de uma falta d’água”, diz.

Uchôa: É decretado racionamento para toda a cidade das 12h às 16h

Na cidade a situação está ainda pior. A prefeitura além de já estar multando os moradores que desperdiçam água, o município agora está sofrendo racionamento de água.

O decreto assinado pelo prefeito de Uchôa, José Claudio Martins, diz que devido ao período de estiagem, o município está com o nível de seus reservatórios de abastecimento de água potável muito abaixo do normal.

O documento afirma ainda que vários bairros da cidade estão com problema no abastecimento à população. No documento consta também que Uchôa fez diversas campanhas na rádio comunitária, carros de som e panfletos para conscientizar a população quanto ao uso racional de água.

No decreto, o racionamento no abastecimento é por prazo indeterminado, para residências, indústrias e comércios. A interrupção do abastecimento, segundo o documento, será de segunda a sexta-feira das 12h às 16h.

Já a lei criada também pelo executivo no dia 16 de setembro desse ano, proíbe os moradores de lavar calçadas, quintais e carros. Constatado pela autoridade municipal a infração, será lavrado auto de infração com aplicação de multa no valor de R$ 176. No caso de reincidência, o valor da multa será aplicado em dobro.

(Matéria publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de novembro de 2014)
(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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