Avaliação feita pela prefeitura de Potirendaba aponta deficiência da educação na cidade

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Uma geração de analfabetos ou de preguiçosos? Uma avaliação feita pela prefeitura de Potirendaba passou um pente fino na educação e apontou uma deficiência assustadora no aprendizado de alunos do 1º ao 9º ano da rede municipal de ensino. Metade dos 1.801 alunos que prestaram a prova não conseguiu acertar metade das perguntas aplicadas.

A avaliação testou o conhecimento dos estudantes nas matérias de língua portuguesa e matemática das escolas municipais Vitório Botaro, João Casella e Maestro Antônio Amato, onde estudam alunos do 1º ao 9º ano. A prova nomeada avaliação diagnóstica foi aplicada nos dias 16 e 29 de março, porém só agora o resultado foi divulgado.

A Gazeta do Interior teve acesso exclusivo a todo o material, inclusive as provas e as respostas dos alunos. Perguntas simples, de conhecimento geral do dia-a-dia, alunos do 9º ano não conseguiram responder. E na medida em que avança o ano, o índice só piora.

A prova continha 20 questões de cada matéria. A maior gravidade diagnosticada pela coordenadoria de educação está na interpretação dos estudantes em cada conteúdo. Uma pergunta feita ao 9º ano à escola Amato e ao Vitório Botaro pedia para que fosse avaliada uma foto onde aparecida uma imagem ilustrativa de um outdoor caído de uma propaganda do banco HSBC com a seguinte frase: “Se você fosse uma árvore, você nem teria notado. Preserve. (Confira foto abaixo)

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A questão: Observando atentamente o anúncio, podemos concluir que o anunciante é: Um banco? Um ambientalista famoso? Uma organização não governamental ou um publicitário. Assustador ou não, mas 99% dos alunos não souberam responder a questão simples, onde aparecia explicitamente o banco como anunciante.

Mais preocupante que isso, é a explicação dada por alguns professores à considerada “catástrofe interpretativa”. Alguns educadores alegam que o motivo do erro coletivo se deve porque não existe banco HSBC em Potirendaba ou então porque o banco foi vendido.

Na língua portuguesa, a prova foi aplicada para testar a compreensão, uso da leitura e principalmente a interpretação de cada aluno. Na matemática o objetivo foi testar situações que o estudante usa no dia-a-dia.

Temido pelos que passam pela rede municipal de ensino, quem elaborou a prova foi Auro Reginaldo Vendramin, ou professor Nenê. Conhecido por ser rígido em sala de aula e aplicar métodos disciplinares antigos aos alunos, Nenê hoje ocupa cargo na coordenadoria de educação, onde pretende auxiliar a coordenadoria e colocar a educação municipal nos trilhos.

Para ele, o problema não está só na educação municipal e sim em todo o País. “Eu vejo que a culpa não é dos governantes e nem dos alunos, pois isso infelizmente é em todo o Brasil. Muitos professores ficam bitolados em apostilas e se esquecem do principal que é ensinar e dar gosto aos alunos em ler e interpretar. A apostila deve ser usada como apoio e não como fator principal educador”, explica.

A prova elaborada pelo professor continha questões básicas que testavam a interpretação de texto e o desenvolvimento da habilidade de cada estudante. Nenê classifica a defasagem como muito conteúdo e pouca habilidade.

“Estamos indo na contra mão de tudo isso. Devemos educar nossos alunos com as habilidades e desafios do dia-a-dia, pois não adianta ficarmos ensinando a teoria, sendo que o que eles vão usar é a prática”, fala o professor.

Os resultados da avaliação atestam a explicação do professor. Do 1º ao 4º ano a média de acertos das repostas é de 50 a 60%. Quando os alunos vão crescendo, a defasagem e os erros aumentam. Do 5º ao 9º a média de erros é de 60 até 75% em algumas salas.

Sem querer se identificar a mãe de uma aluna da escola Vitório Botaro diz que a filha dela estava aprendendo o mesmo conteúdo que no ano anterior e decidiu então questionar a professora. “Quando eu perguntei para a professora porque minha filha estava aprendendo a mesma coisa que no ano passado ela me disse que era porque ainda não tinha chegado as apostilas, mas queria entender que tipo de professora é essa que não aplica o que aprendeu na faculdade. Tudo bem que necessita de um plano pedagógico, mas ficar dependendo de uma apostila isso para mim não é professor”, desabafa.

Nenê diz que metas foram traçadas para começar a mudar esta realidade que atinge todo o país. “Esse sistema de aprovação automática é errado. Os alunos passam de um ano para o outro sem saber interpretar e solucionar problemas simples de matemática. Vamos começar a implantar o sistema de ensino que já existe em Novo Horizonte e que é uma cidade que atinge a maior no IDEB aqui na região”, fala.

O professor diz que simulados serão aplicados semanalmente aos alunos para verificar o nível educacional atingido em sala de aula. “Os professores com a ajuda do coordenador receberão auxílio de um novo estilo de elaboração de avaliação em cima dos descritores. Vamos reduzir o conteúdo e aumentar a habilidade”, explica.

Uma professora que também prefere não se identificar concorda com Nenê. “Eu acho desnecessário quatro apostilas no ano. Aí somos meio que obrigados pelos pais e até pelos próprios alunos porque não estamos dando conteúdo das apostilas. Acho que um novo método de ensino melhoraria e muito não só a educação, como nossa forma de trabalhar em sala”, afirma.

REPERCUSSÃO:

A reportagem causou grande repercussão entre pais e principalmente entre professores da cidade. Nos bastidores, houve boato de greve entre os educadores por causa da matéria vinculada na edição impressa de julho.

A Gazeta foi questionada sobre os termos utilizados em seu editorial e também na reportagem. Outra pergunta era o por que do uso da foto da escola na capa da edição.

O Grupo Imagine Comunicação do Interior esclarece que a liberdade de imprensa é um direito garantido e amparado pela Constituição Federal e que jamais vai se envergar por comentários maldosos que tentam manchar a credibilidade de grandes profissionais. Afirma ainda que a decisão do uso de fotos, bem como textos e outras produções jornalísticas, competem exclusivamente da editoria do jornal e que jamais vai se deixar manipular por nenhum cidadão, muito menos professores de nenhuma esfera educacional. O Grupo orienta que caso algum dos professores tenha dúvida quanto aos termos e vocabulários utilizados na reportagem ou em seu editorial, consulte um dicionário ou então o Google.

Na semana passada, uma carta titulada “Do A ao Z da Educação” foi enviada à redação do jornal caracterizada como “direito de resposta”. Vale lembrar que tal direito de resposta foi dado aos educadores na própria reportagem publicada mês passado, onde teve depoimentos de professores e funcionários da Coordenadoria Municipal de Educação. A carta feita pelos professores, foi assinada pela Coordenadoria de Educação, equipe gestora e professores da escola Maestro Antônio Amato.

CARTA:

“A Coordenadoria Municipal da Educação de Potirendaba, em total consonância, com a equipe gestora e docentes da EMEF “Maestro Antônio Amato” repudia, veementemente, a reportagem intitulada “O ABC do Pocotó”, edição nº 71/junho de 2017, vinculada pelo jornal “Gazeta do Interior”.

Acreditamos que “a política ideológica da semiótica nostálgica do ABC DO POCOTÓ” não continuará atuando, tão pouco, tentando ajudar a sociedade. Como educadores, queremos externar, de forma sucinta, que acreditamos“Do A ao Z da Educação”, ou seja, que ela é um meio eficiente para a transformação social que tanto almejamos.

Sendo assim, nosso esforço não se baseia unicamente em informar conteúdos, mas formar cidadãos capazes de exercerem plenamente sua cidadania.

Por esta razão, não concordamos com a manchete vinculada à imagem da escola Amato, nem com o teor sensacionalista da frase que inicia o editorial deste referido jornal. Ela espalhou respingos de cizânia entre os leitores, visto que não se sabe, de fato, quem é o burro: o professor que não soube ensinar ou o aluno que obteve resultado insatisfatório na avaliação diagnóstica?

É inadmissível, ainda que metaforicamente, considerar um aprendiz – que se encontra em processo contínuo de construção de conhecimento – como sendo um “burro”.

  • A maioria dos alunos errou tal questão, pois falta-lhes conhecimento prévio da existência desta entidade financeira (o que é perfeitamente explicado pelos teóricos da Educação);

Esclarecemos que uma avaliação diagnóstica não pode ser classificada como “catastrófica”, pois trata-se de uma ponte entre o que se sabe e o que se pretende saber em Educação.

É inegável que o ensino público precisa melhorar qualitativamente. Contudo, este não é o momento propício para apontarmos estigmas educacionais sem a busca incessante por soluções.

Como educadores, estamos convictos de que a Educação, em nosso país, só passará por uma catarse revolucionária quando nossos governantes investirem vultosos recursos na área educacional, quando houver maior participação da família do aluno, quando o professor for devidamente considerado, respeitado e valorizado, inclusive na mídia, como ocorre na Finlândia, por exemplo”.

(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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