ARTIGO: Será mesmo que Luxemburgo está defasado taticamente ou o problema é outro?

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Em 9 de janeiro de 2005 um técnico brasileiro dava o voo mais alto que qualquer nacional ousara dar na história: treinar o Real Madrid, a época nove vezes campeão da UEFA Champions League. O objetivo era a tríplice coroa tal qual atingira no Cruzeiro em 2003: ganhar a Copa del Rey, a décima Champions e La Liga. O elenco tinha poder de fogo para tanto: Figo, Beckham, Casillas, Zidane, Ronaldo e um jovem Sergio Ramos.

O resultado final foi um elenco rachado, uma derrota tremenda para a então potência francesa, o Lyon, e um baile do Barcelona no Bernabéu – o qual resultou em aplausos da torcida merengue. Vanderlei Luxemburgo teve passagem relâmpago e foi “um cara de vanguarda” quando o assunto era treinador europeu na Europa. Tal qual a passagem de Scolari no Chelsea, os resultados não vieram e talvez as portas tenham sido fechadas para brasileiros por lá – pelo menos na última década assim foi feito.

A derrocada de Luxemburgo em 2005 foi apenas o primeiro passo de quedas e mais quedas – algumas amparadas por trabalhos razoáveis, como a campanha de 2008 com o Palmeiras no Campeonato Paulista – tal qual outros títulos estaduais pós-2005, como mineiros, cariocas e paulistas com Atlético, Flamengo e Santos. No mais, Luxemburgo foi perdendo brilho a cada passagem, a cada demissão. Como Harvey Dent diria em O Cavaleiro das Trevas, ou você morre como herói ou vive o suficiente para se tornar o vilão.

Luxemburgo é, hoje, vilão para alguns. Representa o ego do “atraso”, o “fato gerador” do 7 a 1. Não que taticamente seja atrasado, mas talvez a questão vá além. Na década de 1990, não era comum ver comissões técnicas tão “profissionais” como aquelas montadas por ele. Acabou, em muitas oportunidades, sendo o diferencial. Ali ele foi, sim, o “cara de vanguarda”. Hoje isso é comum e o diferencial se foi. A década de 1990, aparte de Telê Santana e os trabalhos de Scolari no Grêmio e Palmeiras, não é lembrada como um celeiro de treinadores brasileiros. Nos anos seguintes, os times comandados pelo professô enfrentaram Muricys, Tites e Cucas que não eram ossos fáceis de roer.

Talvez o grande problema de Luxemburgo atualmente seja, de fato, o ego. No período pós-demissão do Real, ele não foi estudar nada fora do país para tentar se atualizar (tal qual Rogério Ceni faz, no momento, após sua aposentadoria). Talvez tenha faltado humildade para perceber que o esporte está em constante evolução e o que dava certo em 2003 não ocorre mais em 2016, incríveis 13 anos depois. Da mesma forma que o futebol era um antes da laranja mecânica de 1974, o é também depois de tiki-taka e outras filosofias em voga na Europa já há algum tempo.

Em segundo lugar, a tática motivacional de Luxemburgo já não funciona mais a longo prazo. Na década de 1990 e ao início da década passada – seja com o Palmeiras ou com o Cruzeiro – o treinador dispunha de elencos fantásticos que colocavam facilmente em prática sua teoria ofensiva. O extra vinha de palavras motivacionais, que faziam com os jogadores achassem que eram melhores do que sua técnica até então demonstrava.

No curto período – especialmente em campeonatos estaduais, conforme o histórico desde 2005 mostra – isso dá certo. Principalmente porque a motivação dos outros times em estaduais costuma ser em ritmo de pré-temporada. O modus operandi costuma dar certo para tirar os times da “zona da confusão” no Campeonato Brasileiro – a motivação funciona no curto prazo. No ano seguinte, após trazer reforços escolhidos a dedo por ele – tal qual fez agora na última passagem chinesa – o longo prazo fala mais alto sobre a motivação e a técnica defasada é anulada pelos adversários.

Após a demissão do Tianjin Quanjian, time chinês da segunda divisão onde o “proxeto de longo prazo” não deu certo novamente, Luxa teve um período sabático onde quis mostrar publicamente seu poder estratégico por meio de campeonatos de poker. Inclusive ele esteve em um realizado em São Paulo no último mês de julho. Depois, fez um tour em programas de TV onde se auto-denominou “cara de vanguarda”, alguém que “é bom”, “vítima do 7 a 1 que foi perdido por Felipão”, e um treinador que “domina a profissão”. Contestou a complexidade do 4-1-4-1 – sistema em voga em vários times europeus – como mera versão do 4-3-3 ou do 4-5-1. Disse que Guardiola era marketing. Nas entrelinhas, alguns poderiam dizer que o foco era chamar atenção para tirar o São Paulo da “zona da confusão”. Provavelmente o faria, com a neurolinguística do “projeto”. Depois, em 2017, o ciclo se repetiria tal qual em outros clubes aconteceu – Flamengo e Grêmio sendo dois exemplos recentes.

Luxemburgo não está defasado no lado tático, necessariamente falando. Ele o está no modo de treinar e conduzir suas equipes. No longo prazo, apenas motivação e prometer projeto não funciona. Na primeira derrota ruim – tal qual ocorrera no Real – o modus operandi vai por água abaixo porque a fé do elenco desmorona junto.

 (Foto: Divulgação)

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