Animais com sinais de maus tratos estão morrendo em propriedade rural de Nova Aliança

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(Reportagem publicada na edição impressa da Gazeta do Interior do mês de setembro de 2018)

Pelo menos 18 animais entre bezerros e vacas morreram com suspeita de maus tratos em uma propriedade rural de Nova Aliança. Outras dezenas de cabeças estão fracas, bastante magras e mal conseguem parar em pé.

A denúncia que partiu de leitores da Gazeta do Interior surgiu no começo deste mês de setembro de 2018 após anos presenciando o descaso. No sítio que fica a sete quilômetros da área urbana da cidade, pelo menos 43 cabeças vivem em um espaço fechado já que, devido ao clima seco, não possui pasto suficiente.

Com autorização de um funcionário do local, nossa equipe entrou na propriedade e constatou o verdadeiro estado de abandono de vacas e até cavalos. Logo na entrada, encontramos uma vaca separada do rebanho, machucada, bastante debilitada, magra e que mal conseguia parar de pé.

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Não muito distante da casa da propriedade, 14 animais mortos entre novilhos e bezerros recém-nascidos foram jogados e estão em estado de decomposição. Aparentemente, o gado que morreu no pasto devido à desnutrição, foi arrastado até o local que virou um verdadeiro cemitério de animais a céu aberto.

Diversos urubus se alimentavam dos restos do gado e um forte cheiro dava para ser sentido a metros de distância. No espaço, além de ossadas e carcaças, alguns animais aparentavam ter morrido há poucos dias.

No dia em que nossa reportagem esteve no local, 55 cabeças de gado dividiam o espaço do curral. Parte do rebanho estava bastante debilitado, magro e alguns animais não conseguiam parar de pé.

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Segundo o funcionário, parte do gado veio do norte estado de Minas Gerais e muito magro. Ele conta que está trabalhando no sítio há cinco meses e estes animais já estavam na propriedade, mas que ainda não se recuperaram.

Questionamos qual tipo de alimentação é dada ao gado e ele afirma que estava tratando com silo à base de abacaxi, mas que pediu para que o patrão trocasse pelo silo à base de milho. “Eu trato esse gado três vezes por dia, mas é que demora mesmo para recuperar. Tiro leite duas vezes por dia, mas estamos dando ração e estão bem melhor do quando chegaram”, afirma.

Sobre a vaca encontrada caída e debilitada, o homem fala que ela está prenha e que escorregou no curral durante uma chuva. “Eu deixei ela separada porque ela está toda ralada e estamos tratando dela”, fala.

Flagramos ainda no curral da propriedade outros cinco animais que, além de muito magros, não conseguiam se levantar. Mesmo com os animais nesta situação, o funcionário diz ainda que chega a tirar 120 litros de leite por dia.

E esta seria a explicação do dono da propriedade para nossa reportagem. Por telefone ele fala que este tipo de gado de leite não tem aptidão para engordar.

“Eu gasto quase R$ 20 mil  por mês com silagem para esse gado. Não existe maus tratos nenhum. É que infelizmente ocorreram algumas fatalidades como dois animais que morreram por picada de cobra e outros porque realmente estavam doente. Gado de produção de leite não engorda”, explica o homem.

Explicação esta desmentida pelo médico veterinário, Humberto Loureiro Santana. Nossa reportagem mostrou as imagens ao profissional e que afirma nitidamente haver sinais de maus tratos deste rebanho.

“Gado de leite só emagrece por falta de alimentação ou se estiver doente. Não existe nenhuma raça de gado que tem que ser magra e só pelas imagens é clara uma situação de maus tratos. Se eles estiverem alimentando estes animais apenas com silagem, seja de abacaxi ou de milho, não está sendo suficiente, pois eles precisarão de uma ração com outros complementos alimentares para balancear a dieta deste rebanho”, afirma.

Perguntamos ainda ao veterinário se, em cinco meses que o gado veio de outro estado para Nova Aliança, ele já não teria recuperado o peso. Ele afirma que se estivesse sendo bem tratado, o período de recuperação seria ainda menor.

“Um gado sendo bem alimentado, ganharia de um a dois quilos por dia. Ou seja, em 30 dias um animal pode ganhar até 60 quilos, o que não aparenta ser o caso destes animais”, explica Humberto.

O dono do gado diz que não sabe com precisão quantos animais possui na propriedade, mas acredita ser em torno de 43 cabeças, número divergente do apresentado por seu funcionário. Além da alimentação, ele afirma que também possui um veterinário que visita seu rebanho a cada dez dias.

“Eu tenho esse gado por hobby, pois só tenho lucro de R$ 2 mil por mês de leite e um gasto de quase R$ 20 mil só com silo. Meus animais são muito bem tratados, estou totalmente respaldado com notas fiscais”, afirma o dono do sítio.

Já sobre aos animais mortos e expostos a céu aberto ele afirma que já solicitou diversas vezes para que a prefeitura viesse enterrá-los com uma máquina, porém ninguém nunca apareceu. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Nova Aliança disse que não existe nenhuma ligação do proprietário solicitando o enterro destes animais.

Entramos em contato com a Polícia Ambiental de São José do Rio Preto que enviou uma equipe ao local. O capitão da corporação de São José do Rio Preto, Alessandro Daleck, disse que o proprietário apresentou documentação sobre os investimentos que tem feito como a compra de suplementos alimentares para o gado.

“Realmente constatamos que parte do gado está magra, principalmente por que essa época do ano acaba sofrendo por causa da seca. Verificamos ainda que alguns animais estão doentes, porém estão com acompanhamento de médico veterinário. A priori e até porque foi nos apresentado atestado, não está constatado o crime de maus-tratos, mas vamos continuar acompanhando estes animais nas próximas semanas e fiscalizando o local”, afirmou.

A Casa da Agricultura de Nova Aliança disse que o caso compete à Polícia Ambiental e que apenas acompanhou a ação dos policiais.

“Gado morre mesmo. Fica velho e morre”, finaliza o dono.

(Fotos: Luiz Aranha/Gazeta do Interior)

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