ABC DO POCOTÓ: Alunos da rede municipal sofrem com sistema de ensino de algumas cidades

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Diogo De Maman

Jonas Garcia

Luiz Aranha

A realidade do ensino no Brasil aponta para um futuro muito semelhante ao presente. Um país dividido: Sudeste e Sul com melhores condições que Norte e Nordeste e uma educação pública pior do que a particular.

A Gazeta percorreu três das principais cidades da nossa região como Potirendaba, Tabapuã e Uchôa e fez uma checagem de como anda o “ABC do Pocotó”. A Gazeta realizou ainda um teste com alguns alunos da rede municipal de ensino e os resultados são assustadores. Adolescentes com deficiências na escrita de palavras simples e professora diz que aluna está de parabéns.

Nossos repórteres tiveram acesso a apostilas e cadernos de alunos e pôde constatar que crianças da 5ª série não sabem em qual país mora ou até mesmo o que é um animal mamífero. Em Potirendaba, por exemplo, crianças cursando a 3ª série do ensino fundamental, mal conseguem escrever o nome da cidade em que mora.

Para a supervisora designada da educação de Potirendaba, Edna Zavan, o fracasso e a deficiência de algumas crianças se devem também aos cuidados de alguns pais. “Hoje os pais não têm tanto tempo hábil para educar, fazer a tarefa e ficar ao lado dos filhos. Os pais não comparecem às reuniões e não acompanham a vida pedagógica das crianças”, conta Edna.

Foi apresentado à supervisora de Potirendaba o exemplo (foto a cima) de um aluno da 3ª série que escreveu em uma tarefa “O casçãon esta conraíva” – sendo que a formação da frase seria “O Cascão está com raiva”, e a professora deu ΓÇÿParabénsΓÇÖ ao aluno. Edna explica que a formação da ideia do aluno está correta, apenas há erros de português na frase. (Confira outros exemplos)

Potirendaba utiliza do sistema de ensino apostilado ΓÇÿAprende BrasilΓÇÖ, que é um programa do sistema Positivo. Tabapuã ensina com o Positivo particular. Uchôa trabalha com o sistema “Ler e Escrever” do Governo do Estado de São Paulo, o que é uma reclamação dos alunos, pois é um sistema ainda pior e que fica notável pouco investimento na área educacional no município.

A Gazeta conversou ainda com pais, alunos e professores de Potirendaba e comprovou que entre as três cidades, Potirendaba se destaca com os mais altos investimentos em educação. Educadores afirmam que os salários pagos são os mais altos da região, ônibus novos comprados com recursos próprios, lousas digitais – uma das primeiras cidades do estado que adquiriu esse sistema, material didático e uniformes gratuitos aos alunos da rede municipal de ensino.

Com diversos privilégios, investimentos e uma educação de primeiro mundo, qual a explicação para alunos que ainda não se dedicam aos estudos e cria cada dia mais, um Brasil analfabeto? A resposta, segundo educadores, pode ser encontrada nos próprios pais e alunos.

Estudantes da escola Municipal Dr. Paulo Birolli, de Uchôa, afirmam que as apostilas do ΓÇÿAprende BrasilΓÇÖ sempre foram melhores, pelo motivo da vasta riqueza de imagens, desenhos e conteúdo que o material do Positivo oferece. A diretora municipal da educação do município, Maria de Lourdes Boschilia, explica que o material trabalhado atualmente na cidade vem trazendo bons resultados e que não sofrerá alterações, pelo menos por enquanto.

“O sistema apostilado já vem pronto, isso faz com que o aluno não se esforce a pensar. Esse sistema do ΓÇÿLer e EscreverΓÇÖ faz com que o professor pesquise e prepare as aulas com mais conteúdo e embasamento, aos alunos”, explica Boschilia.

Já a secretária da Educação de Tabapuã, Cacilda Nicoleti Marcati, diz que o diferencial do ensino não são as apostilas e sim a preocupação da escola e do professor para com o aluno. “As apostilas são muito ricas em conteúdo, mas se não tiver uma aliança entre escola, professor, aluno e família nada disso será válido”, diz.

Em um teste básico realizado pela Gazeta com apenas cinco questões e elaborado por nossa equipe de jornalistas, comprovou que nem sempre as apostilas é a melhor solução para alunos com dificuldades no ensino. As questões foram aplicadas para cinco alunos de 1ª a 5ª série da rede municipal de ensino que são educados com o sistema apostilado. Uma das perguntas era em qual país o aluno morava, e, três, dos cinco alunos responderam que o país era Potirendaba.

Ainda no teste, nenhum dos alunos conseguiu responder o que é um animal mamífero. Contas simples de adição, subtração e multiplicação foram aplicadas, mas nenhum deles acertou todas as questões de matemática.

Uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Educação (MEC) aponta que o Brasil tem cerca de 16 milhões de analfabetos. Levando-se em conta o conceito de “analfabeto funcional”, que inclui as pessoas com menos de quatro séries de estudo concluídas, o número salta para 33 milhões, número que preocupa cada vez mais educador e autoridades.

“O Brasil está despertando lentamente de um sono profundo com os passos ligeiros de um burrinho que faz pocotó, pocotó, pocotó”, essas são palavras de um conhecido colunista e crítico da região e deixa claro que maiores investimentos na educação, formação de pais mais atentos aos filhos, trarão resultados e consequentemente farão com que o nosso país desperte desse sono e acorde para a realidade de um país que ainda não aprendeu a lição.

(Imagens: Apostilas Aprende Brasil e teste Gazeta do Interior)

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