A falência da Polícia Civil da região; Potirendaba é uma das que mais sofrem com falta de funcionários

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Você está chegando do trabalho, abre a porta de casa e nota que ela está arrombada. Ao entrar percebe que ladrões entraram alí e fizeram um verdadeiro limpa. Chama a polícia, registra o boletim de ocorrência e a esperança é de que os criminosos sejam encontrados. Pois é apenas esperança. A ineficiência da Polícia Civil do Estado somada a falta de funcionários superlota as delegacias das região e fazem com que, cada vez mais, crimes fiquem sem solução e boletins de ocorrência demorem até vinte dias para serem registrados.

É o caso de Marta (nome fictício). Moradora de Potirendaba que prefere não ser identificada, ela conta que entraram na casa dela no ano passado e levaram desde roupas, até alimentos da dispensa. Mais de um ano se passou e até hoje o crime nunca foi esclarecido. “Entraram de dia, vizinhos ouviram o barulho, alarme disparou, mas foi tudo muito rápido e ninguém foi preso. A nossa esperança era de que o crime fosse investigado e solucionado, mas infelizmente nem chamada para pegar meu boletim de ocorrência eu fui”.

Infelizmente mesmo Marta. Segundo a própria Secretaria de Segurança Pública (SSP), apenas 2% dos casos de roubos são esclarecidos no estado de São Paulo. Furtos, apenas 1%.

Para a baixa da produtividade, segundo especialistas, uma série de fatores que prejudica o esclarecimento dos crimes: o sucateamento das delegacias; a falta de infraestrutura das polícias técnicas nos estados para obtenção de provas; o déficit do número de investigadores; e a burocracia, além da não integração entre delegados, promotores e a Justiça no andamento dos inquéritos, são alguns.

Potirendaba hoje é a pior delas daqui da região da Gazeta. Sede de comarca, a delegacia do município com 16,7 mil habitantes, tem apenas três funcionários. Todos os funcionários trabalham das 9h às 18h30. De janeiro até agora foram registrados, na cidade, 655 boletins de ocorrência.

Bady Bassitt que tem menos habitantes que Potirendaba registrou 467 BO’s. A delegacia de Bady tem um investigador, dois escrivães, um agente policial, um auxiliar de serviços e o delegado.

Apesar do baixo número de funcionários, segundo dados da SSP, Potirendaba, em 2014, instaurou 97 inquéritos nos 12 meses, uma média de 7 por mês. Este ano, de janeiro até julho, já foram 77 procedimentos instaurados, aumentando a média de 11 inquéritos por mês. Prisões em flagrante foram duas no ano passado e 26 este ano.

Para o delegado de polícia assistente do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior (Deinter 5), Raymundo Cortizo Sobrinho, os concursos são realizados pelo governo do Estado e infelizmente depende da vontade do governo. “Temos 11 concursos públicos que sairão o ano que vem. São mais de mil investigadores, 700 escrivães em um dos concursos, mas isso leva tempo, pois ainda estão em tramitação e os policiais ainda passam pela academia de polícia”.

Sobre a deficiência de funcionários, o delegado diz ainda que a destinação desses agentes para estas cidades compete à delegacia de polícia do Estado. “Infelizmente todas as esferas seja da saúde, educação, passam por essa deficiência de funcionários. Quem tem que tomar atitude são os governadores que devem realizar mais concursos para a contratação de mais funcionários”, diz o delegado.

Potirendaba
População: 16.700
Funcionários:
Um escrivão de polícia;
Um investigador de polícia;
Um escrivão readaptada (não dá plantões).
Um delegado.
Boletins de janeiro até agora: 655

Ibirá
População: 11.861
Funcionários:
Um investigador de polícia;
Dois escrivão de polícia;
Um agente policial;
Um auxiliar de serviços;
Um delegado.
Boletins de janeiro até agora: 467

Bady Bassitt
População: 16.359
Funcionários:
Dois investigadores de polícia;
Dois escrivães de polícia;
Um delegado.
Boletins de janeiro até agora: 475

Uchôa
População: 9.968
Funcionários:
Dois investigadores de polícia;
Um escrivão de polícia;
Um auxiliar de serviços;
Um delegado.
Boletins de janeiro até agora: 340

‘Ninguém’ mora na cidade

Não há lei que especifica e que obrigue autoridades a morarem nas cidades que trabalham, mas em Potirendaba a situação seria cômica se não fosse trágica. Conforme a Gazeta do Interior já mostrou anteriormente nem a própria prefeita, Gislaine Franzotti, declara que mora na cidade. O delegado, o sargento da Polícia Militar, o investigador de polícia, o juiz e o promotor de justiça, todos são moradores de São José do Rio Preto.

Para o especialista em segurança pública, Ailton Marcelo de Barros, esses são alguns dos fatores que somam para a não solução dos casos. “Como que um delegado, um investigador e um sargento conhecem o histórico de criminosos de sua cidade se eles não moram nela. Esse é um dos fatores que contribuem ainda mais para o sucateamento das delegacias do nosso país”, diz.

Para o delegado do Deinter, Raymundo Cortizo, é uma situação engraçada. “A Constituição Federal obriga que suas autoridades residam em suas comarcas, porém não é tanto pelo fato de morar na cidade, pois o funcionário tem que desempenhar um bom serviço morando ou não no município”, diz.

(Foto: Gazeta do Interior-arquivo)

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