117 pacientes ‘sem nome’ vivem em hospitais de São Paulo

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Pinguim trazia só a roupa do corpo quando foi internado, há 31 anos, no Centro de Reabilitação de Casa Branca, hospital no interior paulista. Com dificuldades na fala, só sabia dizer o próprio apelido.

Já Maria Mudinha foi o nome atribuído a uma idosa, debilitada, ao dar entrada há quatro anos no hospital Dom Pedro 2º, no Jaçanã (zona norte de SP). Em 2012, ela balbuciou o que as enfermeiras suspeitam ser seu nome: Dalva.

Como eles, outros 636 pacientes foram internados desde 2006 em hospitais no Estado sem identificação.

Hoje ainda há 117 “sem-nome” -os demais tiveram alta ou morreram- em hospitais públicos e particulares, segundo site da Secretaria de Estado da Saúde criado na tentativa de localizar familiares.

São pessoas achadas na rua desmaiadas ou com traumatismos na cabeça. A maioria é idosa e há a suspeita de que alguns fossem moradores de rua. Pior: alguns foram abandonados intencionalmente por parentes.

Eles são levados a prontos-socorros e, após alta, transferidos para hospitais que internam por um período mais longo pacientes crônicos -com sequelas de um derrame, por exemplo.

No hospital do Jaçanã, ligado à Santa Casa, entre os atuais 403 pacientes, 20 foram recebidos sem RG.

Sete deles, incluindo Dalva, só sabiam dizer o primeiro nome. Alguns estão acamados e requerem cuidados contínuos. Outros, porém, já poderiam ir para casa -se soubessem onde ela fica.

Para o médico Paulo Formighieri, do Ambulatório de Geriatria do HC de Ribeirão Preto, a situação chega a esse ponto porque o Brasil não tem um sistema eficiente de cadastro de dados e digitais.

“Além de divulgar na mídia, não há muito o que fazer para localizar a família.”

Os “sem-nome” enfrentam o abandono até no fim da vida. Ao morrer, são enterrados como indigentes. É como se nunca tivessem existido.

Os hospitais, então, passaram a pedir na Justiça a chamada certidão de nascimento tardia. “É dar uma maior dignidade à pessoa”, diz Sandra Bin Dias, assistente social do Hospital Auxiliar de Suzano, do HC de São Paulo.

Foi o que ocorreu com Pinguim. Com a nova certidão de nascimento, ele passou a ser Luis Antônio Pinguim Figueiredo. Luis era o nome de um amigo seu, motorista do hospital. Antônio, o de outro motorista. E Figueiredo, o sobrenome de uma funcionária.

“Agora, quando você pergunta o nome dele, ele diz: Luis Antônio”, conta Sueli Pereira Pinto, a diretora do hospital.

(Foto: Raquel Cunha/Folhapress)

(Texto: Folha de S. Paulo/Juliana Coissi)

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